Aldeia foi publicado em 1997, pela Papel & Tinta Editora.
O livro foi ilustrado com xilogravuras originais de Noemi Ribeiro.
ALDEIA
Lembro-me da ceia,
que era água e sal.
Lembro-me do sangue
que jorrava na aldeia.
Lembro-me da fadiga
que o corpo carregava.
Lembro-me do silêncio,
que nada me disse da vida.
Lembro-me das minhas garras
que antes eram afiadas,
hoje estão cegas e abandonadas,
como uma casa sem portas.
Lembro-me das mãos meigas
colhendo lágrimas da minha dor.
Lembro-me de ti.
Lembro-me do sangue da aldeia.
Lembro-me...
Lembro-me da ceia,
que era água e sal.
Lembro-me do sangue
que jorrava na aldeia.
Lembro-me da fadiga
que o corpo carregava.
Lembro-me do silêncio,
que nada me disse da vida.
Lembro-me das minhas garras
que antes eram afiadas,
hoje estão cegas e abandonadas,
como uma casa sem portas.
Lembro-me das mãos meigas
colhendo lágrimas da minha dor.
Lembro-me de ti.
Lembro-me do sangue da aldeia.
Lembro-me...
IMAGEM
Olhei,
parei e vi duas almas gêmeas,
que vinham dos jardins do mundo.
Elas debruçaram-se no espelho das águas,
numa só imagem amaram o sol,
as flores, os relâmpagos,
a fonte que alimenta o mar,
que também me alimenta!
Nas dunas do vale vi uma nuvem
indo ao infinito azul do céu...
Uma chama desfez-se no abismo.
Senti fogo, senti água...
Diante de tudo me senti nada.
Olhei,
parei e vi duas almas gêmeas,
que vinham dos jardins do mundo.
Elas debruçaram-se no espelho das águas,
numa só imagem amaram o sol,
as flores, os relâmpagos,
a fonte que alimenta o mar,
que também me alimenta!
Nas dunas do vale vi uma nuvem
indo ao infinito azul do céu...
Uma chama desfez-se no abismo.
Senti fogo, senti água...
Diante de tudo me senti nada.
AURORA
Vejo pegadas de viajantes,
que vão na quietude da tarde.
O vento leva a onda ao norte,
um véu lilás traz o por do sol.
A brisa sopra no leito do rio,
na areia a lua jaz despida.
A flor é bela e sem defeito,
orvalha-se e beija a manhã.
A aurora chega bem cedo,
à porta não resisto à beleza.
A natureza canta em segredo
um hino simples de alegria.
O dia vem depressa no peito,
a dor já não tem mais jeito.
Deito-me leve na relva verde,
sinto o perfume da brisa.
Vejo pegadas de viajantes,
que vão na quietude da tarde.
O vento leva a onda ao norte,
um véu lilás traz o por do sol.
A brisa sopra no leito do rio,
na areia a lua jaz despida.
A flor é bela e sem defeito,
orvalha-se e beija a manhã.
A aurora chega bem cedo,
à porta não resisto à beleza.
A natureza canta em segredo
um hino simples de alegria.
O dia vem depressa no peito,
a dor já não tem mais jeito.
Deito-me leve na relva verde,
sinto o perfume da brisa.
O TREM DA CENTRAL DO BRASIL
O trem vem de Santa Cruz,
pif paf, pif paf ...
Vai direto pra Central,
pif paf, pif paf...
Lembra o lamento dos pobres,
a canção do bem e do mal.
O trem vem veloz,
pif paf, pif paf...
Vem com a corda toda,
pif paf, pif paf...
O pão, a fome, a fome, o pão,
o pão, a fome, a fome, a fome...
Essa gente tem sede de viver.
A dor de nada ter.
Ronca a barriga desesperada,
lá vem o trem,
pif paf, pif paf...
Lá vem o homem,
pif paf, pif paf...
Que homem?
O homem não existe mais.
Um cordão, uma barricada,
um turbilhão de famintos
saqueiam a cidade.
Pif paf, lá vem o homem.
Pif paf, lá vem o trem.
O trem, o homem, o homem, a fome,
o trem, o pão, o homem, o pão...
O trem vem de Santa Cruz,
pif paf, pif paf ...
Vai direto pra Central,
pif paf, pif paf...
Lembra o lamento dos pobres,
a canção do bem e do mal.
O trem vem veloz,
pif paf, pif paf...
Vem com a corda toda,
pif paf, pif paf...
O pão, a fome, a fome, o pão,
o pão, a fome, a fome, a fome...
Essa gente tem sede de viver.
A dor de nada ter.
Ronca a barriga desesperada,
lá vem o trem,
pif paf, pif paf...
Lá vem o homem,
pif paf, pif paf...
Que homem?
O homem não existe mais.
Um cordão, uma barricada,
um turbilhão de famintos
saqueiam a cidade.
Pif paf, lá vem o homem.
Pif paf, lá vem o trem.
O trem, o homem, o homem, a fome,
o trem, o pão, o homem, o pão...
AFLIÇÃO
Mãos aflitas na parede,
no rosto, no retrato,
no pescoço, no ventre...
Mãos que colhem flores,
levam o corpo para a cova e
jogam terra na cara da morte.
Mãos sábias no adeus
pedem proteção em silêncio,
oferecem pão aos pobres.
Mãos que arrancam o feto,
com afeto acariciam as crianças,
plantam e cavam o chão.
Mãos postas sobre o peito.
Mãos suadas e frias.
Uma esmola, uma esmola...
Mãos aflitas na parede,
no rosto, no retrato,
no pescoço, no ventre...
Mãos que colhem flores,
levam o corpo para a cova e
jogam terra na cara da morte.
Mãos sábias no adeus
pedem proteção em silêncio,
oferecem pão aos pobres.
Mãos que arrancam o feto,
com afeto acariciam as crianças,
plantam e cavam o chão.
Mãos postas sobre o peito.
Mãos suadas e frias.
Uma esmola, uma esmola...
ALMA
Por te querer bem
fiz o sol maior e belo,
das estrelas fiz aquarela,
te admirei por toda a vida.
Nos coqueirais à beira-mar,
te procurei, linda Sofia!
Jovem que sonhei um dia,
onde andas, onde estás?
Não quero noite e nem dia,
o tempo é curto, não volta mais.
Minha alma ficou contigo,
nunca quisestes me amar!
Por te querer bem
fiz o sol maior e belo,
das estrelas fiz aquarela,
te admirei por toda a vida.
Nos coqueirais à beira-mar,
te procurei, linda Sofia!
Jovem que sonhei um dia,
onde andas, onde estás?
Não quero noite e nem dia,
o tempo é curto, não volta mais.
Minha alma ficou contigo,
nunca quisestes me amar!
CALMARIA
Ei!
Pedra,
dorme inocente,
a terra te quer bem!
Ei!
Sorte,
traz-me a esperança
de dormir mais uma noite!
Ah!
Já é hora,
nada de ficar triste,
estrada afora vamos,
rindo, cantando.
Sei!
O mar é um mistério.
O silêncio dos peixes
acalma a partida.
NA VITRINE
Na tortura do sexo absurdo
masturba-se um rosto pálido.
Mulheres loucas, noites bêbadas
de droga e cachaça.
No abajur de cor lilás
não pousam mais as mariposas.
Fica o sorriso das almas mortas,
na vitrine de cristal.
Na tortura do sexo absurdo
masturba-se um rosto pálido.
Mulheres loucas, noites bêbadas
de droga e cachaça.
No abajur de cor lilás
não pousam mais as mariposas.
Fica o sorriso das almas mortas,
na vitrine de cristal.
VIDA ESCRAVA
Passa a vida só por passar,
vive da ilusão esquecida!
Bêbada cai na mesa do bar.
A lua bonita de verão
da cor rubra está triste.
Não tem afeto, nem alegria!
Range os dentes na estrada,
com medo vive sozinha,
Aflita, inábil, sofre calada.
Rude, cheia de maldade,
não tem laços de amizade,
perdida, vive escrava!
Passa a vida só por passar,
vive da ilusão esquecida!
Bêbada cai na mesa do bar.
A lua bonita de verão
da cor rubra está triste.
Não tem afeto, nem alegria!
Range os dentes na estrada,
com medo vive sozinha,
Aflita, inábil, sofre calada.
Rude, cheia de maldade,
não tem laços de amizade,
perdida, vive escrava!
FOGO CRUZADO
Sei que não estou só!
Dia vem, dia vai... Não é em vão.
O grito seco é contínuo...
Nas pedras escuta-se o eco de Deus.
Não importa a cor da morte,
a noite de sexo mau transada...
As mulheres damas da estrada
me levam para a boemia.
Não quero saber do absurdo –
o descaso com o trabalhador,
o fogo cruzado das gangues.
Bota uma pinga, vou subir o morro!
Sei que não estou só!
Dia vem, dia vai... Não é em vão.
O grito seco é contínuo...
Nas pedras escuta-se o eco de Deus.
Não importa a cor da morte,
a noite de sexo mau transada...
As mulheres damas da estrada
me levam para a boemia.
Não quero saber do absurdo –
o descaso com o trabalhador,
o fogo cruzado das gangues.
Bota uma pinga, vou subir o morro!
VALE A PENA
Um tropel corre no prado,
um lobo uiva na noite.
O vento atento denuncia.
Num relampejo de olhar
o tropel pisoteia a aldeia,
nada mais pode ser feito.
Neste momento de luta,
conto a história da minha gente
na esperança de um novo dia.
Nem tudo está perdido.
Na partida refaz-se a vida.
Tudo ainda vale a pena!
ASSASSINATO NOTURNO
A minha cor pálida,
vela das almas em flor.
No luar vadio da rua
o clarim toca notas frias.
A minha cor em outra cor.
Todas as cores. Vi estrelas,
vi a mim mesmo numa
metamorfose apocalíptica.
O anjo do clarim azul
toca notas brandas.
Diz ao poeta em versos,
o vento leva o barco!
O clarim da banda militar
toca notas cor de sangue,
anuncia mais uma execução...
Pálida, a face cairá no chão.
A minha cor pálida,
vela das almas em flor.
No luar vadio da rua
o clarim toca notas frias.
A minha cor em outra cor.
Todas as cores. Vi estrelas,
vi a mim mesmo numa
metamorfose apocalíptica.
O anjo do clarim azul
toca notas brandas.
Diz ao poeta em versos,
o vento leva o barco!
O clarim da banda militar
toca notas cor de sangue,
anuncia mais uma execução...
Pálida, a face cairá no chão.
O CAPITAL
Andei por aí, a esmo
olhando revistas.
Não quis saber do futuro,
de pagar as contas,
de gritar na rua – ”pega ladrão”!
Não comi, não fiz sexo.
A maré estava baixa!
O copo d’água sobre a mesa
não me dizia nada.
Queriam-me quarenta vezes morto.
Queriam-me mil vezes pobre.
Queriam-me lascado.
Na Marques de Sapucaí
sambei com a multidão...
Na quarta-feira guardei a fantasia.
A última nota do tamborim
ainda batucava no coração.
Fiz-me de rogado...
O melhor é sambar!
Andei por aí, a esmo
olhando revistas.
Não quis saber do futuro,
de pagar as contas,
de gritar na rua – ”pega ladrão”!
Não comi, não fiz sexo.
A maré estava baixa!
O copo d’água sobre a mesa
não me dizia nada.
Queriam-me quarenta vezes morto.
Queriam-me mil vezes pobre.
Queriam-me lascado.
Na Marques de Sapucaí
sambei com a multidão...
Na quarta-feira guardei a fantasia.
A última nota do tamborim
ainda batucava no coração.
Fiz-me de rogado...
O melhor é sambar!
OS QUATRO CANTOS
A música enche as trevas,
as lágrimas vêm pratear as águas.
O barco navega aos quatro cantos,
a lua jovem desafia os homens.
O coração viaja no oceano,
as águias voam, não voltam mais.
Já não se ouve mais o canto das sereias!
Hoje namora-se na areia da praia.
O viajante inflama a madrugada,
na lira do poeta um êxtase lunar!
O mar azul acalma-se no leito...
Dorme a aventura dos navegantes.
A música enche as trevas,
as lágrimas vêm pratear as águas.
O barco navega aos quatro cantos,
a lua jovem desafia os homens.
O coração viaja no oceano,
as águias voam, não voltam mais.
Já não se ouve mais o canto das sereias!
Hoje namora-se na areia da praia.
O viajante inflama a madrugada,
na lira do poeta um êxtase lunar!
O mar azul acalma-se no leito...
Dorme a aventura dos navegantes.
ORAÇÃO
Na tenda das missões
rogo com fé ao deus do amor.
Tenho as mãos postas!...
No além há uma resposta!
A brenha das lágrimas
traz-me cândidas flores.
Nas noites de orações
rezo o terço – Ave Maria...
O santo chega nu à porta...
Transforma-se em ave...
Já que a vida não deu asas.
Sabe-se lá a morte deixa voar?!
Na tenda das missões
rogo com fé ao deus do amor.
Tenho as mãos postas!...
No além há uma resposta!
A brenha das lágrimas
traz-me cândidas flores.
Nas noites de orações
rezo o terço – Ave Maria...
O santo chega nu à porta...
Transforma-se em ave...
Já que a vida não deu asas.
Sabe-se lá a morte deixa voar?!
O RETRATO
Perto de mim estou em pé,
a voz do mundo nos ouvidos.
Tenho a cara que não desejo...
Disfarço – não adianta, estou só!
Nas costas trago a marca dos anos...
Tempos vividos, nada encontrei.
As mãos não têm afeto nem achego.
Na porta da cidade vejo o pires no chão!
Afasto o desejo do corpo.
As pedras são mais simples.
A vaidade mata o amor e o sonho.
A estrela ainda não morreu.
Perto de mim está o meu retrato,
tenho na alma o vício da carne.
Bebo à noite com os bebuns...
Beijo o colo das mulheres nuas.
Perto de mim estou em pé,
a voz do mundo nos ouvidos.
Tenho a cara que não desejo...
Disfarço – não adianta, estou só!
Nas costas trago a marca dos anos...
Tempos vividos, nada encontrei.
As mãos não têm afeto nem achego.
Na porta da cidade vejo o pires no chão!
Afasto o desejo do corpo.
As pedras são mais simples.
A vaidade mata o amor e o sonho.
A estrela ainda não morreu.
Perto de mim está o meu retrato,
tenho na alma o vício da carne.
Bebo à noite com os bebuns...
Beijo o colo das mulheres nuas.
O ANARQUISTA
Debocha do mundo, da vida dos ricos,
da terra seca, do peito ao vento,
do nada perfeito, do sol risonho,
do beijo da sorte, do futuro e do óbvio!
Debocha do tombo dos bêbados,
do riso das putas, da flor úmida de sangue,
do amor dos velhos, do sexo dos sapos,
do grito da turba e da boca de coalho.
Debocha da cara dos santos,
da barba do bode, das línguas das cobras,
da noite de fogo, do demônio da encruzilhada,
dos coveiros pálidos e do corvo da madrugada.
Debocha dos poetas visuais, da poesia concreta,
do segredo que exala o perfume das virgens e
das forças ocultas que depõem contra o amor
no jardim suspenso no céu.
Debocha do rock, da dança macabra,
da performance do artista no tablado dos deuses,
da sutileza de Belzebu nas tramas da morte,
do solo da América e dos vultos sagrados.
Debocha dos ratos, das aves de rapina,
dos assassinos, das águas e dos cristais,
dos tumores malignos e das chagas dos corpos,
da putrefação da matéria
e dos vermes que devoram a carne.
Debocha do mundo, da vida dos ricos,
da terra seca, do peito ao vento,
do nada perfeito, do sol risonho,
do beijo da sorte, do futuro e do óbvio!
Debocha do tombo dos bêbados,
do riso das putas, da flor úmida de sangue,
do amor dos velhos, do sexo dos sapos,
do grito da turba e da boca de coalho.
Debocha da cara dos santos,
da barba do bode, das línguas das cobras,
da noite de fogo, do demônio da encruzilhada,
dos coveiros pálidos e do corvo da madrugada.
Debocha dos poetas visuais, da poesia concreta,
do segredo que exala o perfume das virgens e
das forças ocultas que depõem contra o amor
no jardim suspenso no céu.
Debocha do rock, da dança macabra,
da performance do artista no tablado dos deuses,
da sutileza de Belzebu nas tramas da morte,
do solo da América e dos vultos sagrados.
Debocha dos ratos, das aves de rapina,
dos assassinos, das águas e dos cristais,
dos tumores malignos e das chagas dos corpos,
da putrefação da matéria
e dos vermes que devoram a carne.