CASULO
Publicado no Rio de Janeiro, em 2006, pela Papel & Tinta.
Publicado no Rio de Janeiro, em 2006, pela Papel & Tinta.
Vai livre, ó verso!
Num grito histérico,
ferindo a estética.
Vai branco, ó verso!
Louco de pedra,
bêbado de sonho.
Vai, ó verso, vai!
Na cara da morte,
pinta a lua redonda.
Vai, ó caco de verso!
Vê se não esquece
o poeta bissexto.
A SOMBRA
Ficava horas a fio
na estação meditando
a ironia do riso das bocas!
As bocas não diziam nada.
Na presença solitária do poste,
atiçava a adrenalina dos fortes...
Era a segunda e escandalosa morte
do guarda de um olho cego.
O momento era de pausa.
As vozes agudas se calavam.
Na dança metálica dos punhais,
caíam anônimas máscaras.
A sombra do passado resistia
como o velho relógio da torre.
Pétreos viajantes ali passavam
na grave melancolia da tarde.
Ficava horas a fio
na estação meditando
a ironia do riso das bocas!
As bocas não diziam nada.
Na presença solitária do poste,
atiçava a adrenalina dos fortes...
Era a segunda e escandalosa morte
do guarda de um olho cego.
O momento era de pausa.
As vozes agudas se calavam.
Na dança metálica dos punhais,
caíam anônimas máscaras.
A sombra do passado resistia
como o velho relógio da torre.
Pétreos viajantes ali passavam
na grave melancolia da tarde.
AO AMIGO
Ao amigo, desejo a prosa dos ricos…
Dizem que a pobreza não é trágica!
Mas falam com hipocrisia e escárnio.
Desejo ao amigo, a astúcia do cão ladino.
Ao amigo, desejo a pureza dos santos
longe de onde o diabo põe o rabo.
Na curva do caminho o bicho é estranho.
Não tem atalho – não passa ninguém.
Ao amigo, desejo a perícia das aranhas
que tecem a teia com a paciência do sábio.
Escondida no plenilúnio só espera!
Desejo ao amigo, espírito e arte.
Ao amigo, desejo a mesa posta,
o olhar sereno no vazio da sala,
uma noite de volúpia com as estrelas!
Desejo ao amigo, alegria e sorte.
Ao amigo, desejo muito vinho, mulheres
louras tingidas, morenas postiças,
mulheres negras sararás, mulatas sedutoras
e bonitas. Desejo ao amigo o molejo
dos bêbados nas noites de sábado.
Ao amigo, desejo a prosa dos ricos…
Dizem que a pobreza não é trágica!
Mas falam com hipocrisia e escárnio.
Desejo ao amigo, a astúcia do cão ladino.
Ao amigo, desejo a pureza dos santos
longe de onde o diabo põe o rabo.
Na curva do caminho o bicho é estranho.
Não tem atalho – não passa ninguém.
Ao amigo, desejo a perícia das aranhas
que tecem a teia com a paciência do sábio.
Escondida no plenilúnio só espera!
Desejo ao amigo, espírito e arte.
Ao amigo, desejo a mesa posta,
o olhar sereno no vazio da sala,
uma noite de volúpia com as estrelas!
Desejo ao amigo, alegria e sorte.
Ao amigo, desejo muito vinho, mulheres
louras tingidas, morenas postiças,
mulheres negras sararás, mulatas sedutoras
e bonitas. Desejo ao amigo o molejo
dos bêbados nas noites de sábado.
A ESTRADA
No vale da sombra eterna,
a alma perpetua-se no acaso.
Percorre a trilha do sonho,
transcende o corpo imaginário.
No olhar de lua de marfim,
cintila a estrela cor de jade.
Serpeia em ondas a terra seca.
O espinho fecunda a última noite.
Conta cada conta do rosário,
tácita sente a dor no ventre.
Dessa flor úmida de sentimento,
nasce uma estrada longínqua.
No vale da sombra eterna,
a alma perpetua-se no acaso.
Percorre a trilha do sonho,
transcende o corpo imaginário.
No olhar de lua de marfim,
cintila a estrela cor de jade.
Serpeia em ondas a terra seca.
O espinho fecunda a última noite.
Conta cada conta do rosário,
tácita sente a dor no ventre.
Dessa flor úmida de sentimento,
nasce uma estrada longínqua.
DOIS ABISMOS
Os olhos pasmos na vidraça!
Não te vejo, não estás me vendo.
É questão de ótica.
Entre nós existem dois abismos:
o retrato de ti e o meu retrato...
São os elétrons das nossas sombras
nas fímbrias do olhar noturno
– na simetria cartesiana.
No ponto em que tu estás,
estou na pele e no eco da voz.
Os olhos pasmos na vidraça!
Vejo-te na nudez de um pássaro.
Peço perdão! O perdão das pedras.
O perdão do pecador que se desespera.
Aos gritos te abraço e digo – estou aqui!
Aos gritos me abraças e dizes
– estou aqui, só em ti!
Os olhos pasmos na vidraça!
Não te vejo, não estás me vendo.
É questão de ótica.
Entre nós existem dois abismos:
o retrato de ti e o meu retrato...
São os elétrons das nossas sombras
nas fímbrias do olhar noturno
– na simetria cartesiana.
No ponto em que tu estás,
estou na pele e no eco da voz.
Os olhos pasmos na vidraça!
Vejo-te na nudez de um pássaro.
Peço perdão! O perdão das pedras.
O perdão do pecador que se desespera.
Aos gritos te abraço e digo – estou aqui!
Aos gritos me abraças e dizes
– estou aqui, só em ti!
O MENINO
Aquele menino não vi mais!
Perdido no tempo ainda grita.
Pássaro de uma terra distante,
à tarde pulava nas águas do rio.
Nas travessuras da idade,
lembrava os sonhos de um dia.
Para o infinito olhava atento...
O filho de Deus não vinha!
Era um grão ínfimo de areia
na casa da ama triste,
contava as estrelas do céu,
entoava um canto místico.
A morte chegava num manto,
esquelética num pé-de-vento.
Ululava e trincava os dentes
... A dor recriava a cena.
Aquele menino não vi mais!
Perdido no tempo ainda grita.
Pássaro de uma terra distante,
à tarde pulava nas águas do rio.
Nas travessuras da idade,
lembrava os sonhos de um dia.
Para o infinito olhava atento...
O filho de Deus não vinha!
Era um grão ínfimo de areia
na casa da ama triste,
contava as estrelas do céu,
entoava um canto místico.
A morte chegava num manto,
esquelética num pé-de-vento.
Ululava e trincava os dentes
... A dor recriava a cena.
BALADA-BLUES
A dama chega vestida de negro,
no chapéu traz plumas rubras.
Tem os seios sedosos, os olhos amendoados,
à meia-luz canta Balada-Blues.
O garçom bêbado, muito bêbado
provoca os homossexuais!
Um assassinato no fim da rua escura.
Corre o sangue nas notas musicais.
O leão-de-chácara insinua
com gestos obscenos tão banais.
Cheira cocaína e bebe whisky-Druris.
O crooner dá o tom lá no Braz.
Na noite gulosa de embriaguez,
a luva desliza na luz do refletor.
A dama num estado delirante,
nos acordes dissonantes, canta
Balada-Blues... Balada-Blues...
A dama chega vestida de negro,
no chapéu traz plumas rubras.
Tem os seios sedosos, os olhos amendoados,
à meia-luz canta Balada-Blues.
O garçom bêbado, muito bêbado
provoca os homossexuais!
Um assassinato no fim da rua escura.
Corre o sangue nas notas musicais.
O leão-de-chácara insinua
com gestos obscenos tão banais.
Cheira cocaína e bebe whisky-Druris.
O crooner dá o tom lá no Braz.
Na noite gulosa de embriaguez,
a luva desliza na luz do refletor.
A dama num estado delirante,
nos acordes dissonantes, canta
Balada-Blues... Balada-Blues...
O TORCEDOR
Ri, homem, ri!
Dá risos sem tamanho,
abre os braços para o norte,
dá gargalhadas para o mundo.
Ri, homem, ri!
A tristeza virá bater à tua porta...
Verás o teu sorriso solto para cima!
A bola rola nos pés,
não importa o que acontece lá fora.
Ri, homem, ri!
Alguém te chama.
O tempo passa.
Não és mais forte.
Ri, homem, ri!
O teu filho também ri
e faz reclame de ti.
No exato momento do gol,
a lágrima molha a bandeira
trêmula no teu coração.
Ri, homem, ri!
Por bem ou por mal, ri.
A alegria é intocável.
Não estás triste!
Ri, homem, ri!
Dá risos sem tamanho,
abre os braços para o norte,
dá gargalhadas para o mundo.
Ri, homem, ri!
A tristeza virá bater à tua porta...
Verás o teu sorriso solto para cima!
A bola rola nos pés,
não importa o que acontece lá fora.
Ri, homem, ri!
Alguém te chama.
O tempo passa.
Não és mais forte.
Ri, homem, ri!
O teu filho também ri
e faz reclame de ti.
No exato momento do gol,
a lágrima molha a bandeira
trêmula no teu coração.
Ri, homem, ri!
Por bem ou por mal, ri.
A alegria é intocável.
Não estás triste!
ESTRADA SEM FIM
Passa por mim,
uma estrada sem fim.
Passam o vaqueiro e o alazão,
percorrem as sete províncias do amor,
ponteia na viola o cantador,
o repente, o galope e o mourão.
Passa por mim,
uma estrada sem fim.
Passam Corisco e Lampião
na dança e no batuque dos tambores,
na rima dos poetas trovadores,
na alegria do maracatu e do baião.
Passa por mim,
uma estrada sem fim,
que vem do norte lá do sertão.
Na caatinga, catingueira que dá flor
protege do sol abrasador,
o penitente que padece nesse chão.
Passa por mim,
uma estrada sem fim.
Passam caipora e assombração.
No terreiro as rezadeiras do senhor
entoam ladainhas em seu louvor
para glória do santo e divino amor.
Passa por mim,
uma estrada sem fim.
Passam o vaqueiro e o alazão,
percorrem as sete províncias do amor,
ponteia na viola o cantador,
o repente, o galope e o mourão.
Passa por mim,
uma estrada sem fim.
Passam Corisco e Lampião
na dança e no batuque dos tambores,
na rima dos poetas trovadores,
na alegria do maracatu e do baião.
Passa por mim,
uma estrada sem fim,
que vem do norte lá do sertão.
Na caatinga, catingueira que dá flor
protege do sol abrasador,
o penitente que padece nesse chão.
Passa por mim,
uma estrada sem fim.
Passam caipora e assombração.
No terreiro as rezadeiras do senhor
entoam ladainhas em seu louvor
para glória do santo e divino amor.
PARA INÉS
Dedico a Juana Inés de la Cruz
Poetisa mexicana do séc. XVIII
En tus ojos negros
Me voy a mirar
En la luz del espejo
En mí tu estás.
Y tus labios rojos
Yo voy a besar
De la locura de este ensueño
Jamás despertaré.
A tu cuerpo en fuego
Mi deseo quiero darle
Soy una luna breve
Que por la noche
Espuma en el mar.
En tu regazo querida
Un hombre quiere suspirar
Y si quieres mis caricias
Muchas más te quiero dar.
En tus brazos ahora
Dos pájaros vuelan hacia afuera
En los arpegios de esta canción
Te amaré eternamente.
Dedico a Juana Inés de la Cruz
Poetisa mexicana do séc. XVIII
En tus ojos negros
Me voy a mirar
En la luz del espejo
En mí tu estás.
Y tus labios rojos
Yo voy a besar
De la locura de este ensueño
Jamás despertaré.
A tu cuerpo en fuego
Mi deseo quiero darle
Soy una luna breve
Que por la noche
Espuma en el mar.
En tu regazo querida
Un hombre quiere suspirar
Y si quieres mis caricias
Muchas más te quiero dar.
En tus brazos ahora
Dos pájaros vuelan hacia afuera
En los arpegios de esta canción
Te amaré eternamente.
OLHAR DE CHUMBO
O olhar fita a estátua,
metáfora do passado
onde nunca esteve!
As águias de asas de prata
voam da universalidade do nada,
e pousam nas vilas desertas.
Uma máquina invisível tritura
em seqüência voraz as almas
impressas no digital da esfera
e mata todas as possibilidades.
Um rosto atônito resiste
na cidade dos homens de bronze.
No olhar de chumbo
vê-se um combatente náufrago.
O olhar fita a estátua,
metáfora do passado
onde nunca esteve!
As águias de asas de prata
voam da universalidade do nada,
e pousam nas vilas desertas.
Uma máquina invisível tritura
em seqüência voraz as almas
impressas no digital da esfera
e mata todas as possibilidades.
Um rosto atônito resiste
na cidade dos homens de bronze.
No olhar de chumbo
vê-se um combatente náufrago.