Paulo Torres, Manoel Moreno

Quarto sete


    Um avião voava para Londres, os cães latiam distantes e Ana estava à janela no meio da fumaça do cigarro – parecia uma estátua de gelo seco. O feijão borbulhava na panela, a sala estava um deus nos acuda. Um retrato em cima da mesa mostrava bem os anos em que viveram juntos.
            Ana tagarelava em silêncio:
         – Pedro da Cruz é nome de poeta? Parece nome de pagador de promessas. O que ele já ganhou com os versos que canta nos becos, além de namorar com as vadias da sua laia? Deveria vender peixe na feira, coco no mercado. Agora anda com a mania de escrever versinhos. Imagina se isso é coisa de homem sério! Eu deveria ter feito como fez a Joana que foi embora com o guarda da estação, e o Alfredo foi trabalhar na construção civil em Brasília – os filhos eles deixaram para trás entregues ao deus dará! O tempo passou, não pensei em mim, apeguei-me ao Pedro e às meninas. Perdi a juventude, hoje não tenho um salário, Janine e Aninha não me dão notícias. Pedro vive nos braços da Carina. Céus! Amarrei a minha égua num pasto de capim seco... Luxuriento, me deixa aí pelos cantos como uma casca de banana, nem ciúme ele tem mais. Ainda diz que depois de tantos anos sexo entre nós é incesto... Antes de viajar não sei para onde, e nem com quem, me disse: “Vou, volto e a vida continua”... Continua mentindo. É um cão sarnento, tenho vontade de esmurrá-lo até não sobrar um caco de Pedro Marcolino da Cruz. Ordinário! Dói, dói...
           Pedro chegou e disse:
        – Ana, trouxe rosas para voce!
        – Carina no peito e rosas na mão para uma tonta, com direito a este sorriso maroto nessa cara de peroba de sempre! Desde quando essa dona entrou na nossa vida, durmo e acordo com ela no pensamento, parece a praga desta goteira no teto, uma coisa sem futuro!
         Com sutileza Pedro afastou Ana da linha de ataque:
         – Aninha está no Pará com as crianças, Janine não apareceu mais, tudo bem!... Mas isso não é motivo para ficar aí com tantas injúrias, com a única pessoa que não reclama da palidez do seu rosto, e das olheiras de mulher mal resolvida... Não pensa em ser feliz Ana? Os fortes vivem e os fracos andam na corda bamba, a vida é uma só, os desejos se acabam com o tempo, quer ir para um hospício com essa loucura?
        – Vaidoso, egoísta e covarde! Não tem coragem de enfrentar a vida lá fora. Carina não lhe quer, é isso, sabe por que?... Ela só quer, só quer... Depois vai tomar vinho em frente ao mar com um outro.  Essas mulheres são espertas, os homens são apenas objetos para as suas transas sexuais. Elas não ralam no tanque de lavar roupas, não lavam cuécas sujas, mas a minha vingança será lhe trair! E no dia em que eu me for, chore lágrimas de sangue! E a consciência lhe torture no fogo do inferno. Na hora do mais tarde, quero ver quem vai segurar a vela na mão do velhinho. Na solidão não terá com quem trocar uma palavra, é bom, porque aí virá o silêncio, aquele das trapaças da infidelidade do nosso amor, que foi tão cheio de cumplicidade. Em voz alta irá conversar com o nada... O perverso que tanto maltratou a esposa, que se casou com véu e grinalda. Quero alguém que cuide de mim, leve-me ao cinema, veja a novela da TV, fale da vida dos vizinhos, gaste o salário com as coisas do meu gosto, beije-me na boca antes de sair para o trabalho e viaje todos os anos para algum lugar. Quero um homem que à noite passe as mãos nas minhas coxas e me faça gozar. Isto é pedir muito para uma mulher que dedicou a vida inteira a quem nunca lhe deu valor?
      – Desde que cheguei nesta cidade me esforço para encontrar a sutileza da arte e levá-la às pessoas que queiram ver um pouco além do comum da minha vida, e voce não entende!... Agora, conviver com essas pessoas, abaixar a cabeça diante deste seu mundo tão pequeno, é duro minha cara!
        Ana ajoelhou-se com as mãos postas diante de Pedro Marcolino da Cruz, e suplicou pelo amor mais sagrado que ele tinha à poesia... Ela estava à porta da rua, parecia uma harpia esculpida no mármore, um fantasma saindo do túmulo numa noite de lua pálida e desabafou:
      – Pedro vá para junto das... que sempre lhe levaram para a sacanagem! Arrume a mala e vá cantar de poeta em outra freguesia! Quero voce fora da minha vida.
        O poeta subiu as escadarias até o quarto, com passos curtos e lentos, sem dizer uma palavra refletia a relação entre as pessoas, que sempre foi um desafio de paciência para resistir aos nocautes da vida. Despediu-se dizendo – “O ciúme é uma fraqueza insana, que atiça o ódio e dilacera o coração do trovador. Adeus Ana Petri!”
       Pedro Marcolino da Cruz mudou-se para um hotel, no Beco dos Poetas número dez, quarto sete.

     


O acaso

        Selma dava beliscões. Rasgava a camisa de Romualdo e dizia aos prantos:
        – O que fiz... o que fiz?...
        Num bate boca eles seguiram para o lado da estação do Metrô. Ela encostou-o nas grades do jardim da Biblioteca... As lágrimas escorriam no rosto até aos seios arfantes, sem o sutiã, as pupilas dilatavam-se em fogo.
       Ela insistia choramingando:
       – O que fiz eu... O que fiz eu? Sou apenas um objeto para lhe dar prazer na cama?
      – Para com isso Selma!
      – Acha que sou uma porta, que abre e fecha na hora que você bem entende? Ou sou um sapato, que usa e abusa, depois joga fora?  Hoje me arrasto aos seus pés, mas amanhã estarei bem longe!
      – Calma garota!
       Selma e Romualdo são jovens e se conheceram nas aulas de teatro e cinema da UFF, desde então se tornaram amantes. Romualdo queria por um ponto final no namoro e Selma estava irada com os nervos à flor da pele. Ela pensou na pistola de prata...procurou a arma no fundo da bolsa de veludo preto...deu um passo para trás – o celular tocou...
      – Alô, alô... Gustavo? Oi, Gustavo (...).
       Selma foi embora entre o riso e o choro, não deu chance de Romualdo dizer que não queria mais ser o amante nas tardes de sábado depois do ensaio da peça “O Caos no Segundo Andar”.

A morte do Ernesto

    Ernesto Borges tomava o café da manhã. Florinda Belo passava roupas. Os únicos ruídos na sala eram do ferro de passar no lençol de algodão e do pão crocante com manteiga nos dentes do Ernesto.
     Calado ele avaliava a mulher.
    – Se falar uma palavra, uma só, será motivo suficiente para Florinda arranjar uma discussão antes de eu sair para o escritório.
    Florinda Belo pensava.
     – No ano que vem, vou levar este casamento ao juiz, o  Ernesto vai morar em qualquer lugar e terá que me pagar uma pensão... cansei destes anos todos que servi de Amélia. Ou então darei cabo do sacana!
     O clima estava tenso.
     Ernesto vagava em pensamentos.
     – O casamento é uma praga humana, nem os laços de família escapam. Filhos piedosos, irmãos amigos são coisas raras, aqui em casa sempre foi e será uma arena.
    Florinda Belo soltou a cachorra.
    – Assim não dá Ernesto! Falta grana, ainda tem fulana,  cicrana e mais a Maria dos Milagres... blá, blá...
     Ernesto estava pálido, vesgo, Florinda dava volteios na sala e estava da cor da cera das almas, zumbia igual a uma abelha.
    Palavrões... Reação.
    Ernesto saiu às pressas. Florinda seguiu-o até à porta da rua e desatou a língua!
    – Veado... Veaaaaaaaaaado!...
    À noite havia entre eles um silêncio de inexistência!  Ernesto tomava banho e Florinda via a novela das sete. Os atores estavam silentes numa cena de amor. Ela veio à sala, mediu Ernesto no olho, voltou ao quarto, desligou a televisão, foi à cozinha, pegou a vassoura e quebrou-o com trinta e três vassouradas, a cada uma contava um ano de casamento, depois foi ao banheiro e com o sangue do morto escreveu no papel higiênico: “merda!” Foi ao quarto, vestiu-se elegantemente, calçou as meias pretas de renda, envolveu-se num facole, pegou a mala e vazou na noite.
    Dia seguinte – funeral... Os parentes – por quê?  Os amigos não entenderam nada.
    Delfino ensaiou uma conversa.
       – O Ernesto era um cara bacana, chegava ao trabalho às sete e saia às seis, todo dia era assim!  Ainda tinha tempo para agitar os torneios de pelada no Aterro do Flamengo, era um torcedor sadio do Botafogo... Pena que ele morreu!
    Cristina acrescentou com deboche.
    – Ah! Também ele jogava xadrez com a Maria dos Milagres e, na hora do xeque-mate, caíam nas delícias do mundo.
    Zé Miguel intrometeu-se.
    – É uma injúria! O doutor Ernesto todos os dias pegava o paletó, ajeitava a gravata verde, descia do décimo segundo andar na Rua Sete de setembro, caminhava até a Praça XV,  pegava o ônibus 119 e voltava para Copacabana... à noite lia o jornal, vestia o pijama de seda já surrado e deitava ao lado da mulher – madame Florinda Belo!
    Um sujeito de óculos finalizou a conversa antes da saída do cortejo.
    – A Florinda Belo fugiu com o Zeca, o motorista de caminhão lá do Leme e não deixou nenhuma pista para a polícia.
    O préstito seguia lento nas ruelas estreitas do cemitério São João Batista, à distância acompanhava o cortejo uma mulher fugidia, enigmática, tinha certa culpa no olhar! Vestia uma saia que cobria os tornozelos e uma blusa carmim decotada exibindo os seios fartos. Taciturna, depositou uma coroa de flores no jazigo dos Borges, com os dizeres:         
    “Ernesto, quem ama não esquece.”


 O Violonista Carioca
   
     Alguns músicos da orquestra Sinfônica de Munique foram ao Teatro Rival ouvir música brasileira. Eles estavam vibrantes com as frases hilariantes da música popular que Cândido de Assis tocava de improviso. Após o show foram ao camarim e o convidaram para se apresentar na Alemanha... Além de tocar em várias cidades, Cândido de Assis estudou harmonia e contraponto com o professor Bergher.
    Depois de dois anos em Munique seguiu para o sul da Espanha para conhecer a música flamenca das aldeias de Andaluzia. Hospedou-se em Cádiz!
    Nas noites de sábado, sempre acontecia na pousada Molina, um encontro de músicos das aldeias. Álvaro Contreras, Anita Fariña, Antonio Munhol, Orizon Mendez, Julio Del Castilho e Niña Mendonza eram os músicos do evento.
    O violonista ainda arrumava as malas, quando ouviu o toque das castanholas... Timbrou o ouvido no canto da cigana, desceu as escadas do andar de cima, sentou-se junto ao público e viajou na evolução do sapateado de Niña Mendonza ao som do violão de Julio Del Castilho. A luz do palco já se apagava... Cândido ficou por ali, entrou na adega... Andrezza Molina o recebeu com um sorriso, e ofereceu-lhe vinho envelhecido da região, quis saber de onde ele vinha. Disse-lhe que era brasileiro e queria conhecer os músicos flamencos. A moça o olhou de um jeito estrangeiro! Mas, o levou até à mesa em que estavam Niña e Del Castilho ensaiando uma canção de autoria de Álvaro Contreras para um balé moderno, que iria estrear no próximo mês no Teatro de Córdoba. Niña gentilmente puxou uma cadeira, Cândido sentou-se ao lado deles... Del Castilho não fez por menos, ofereceu-lhe o violão. O músico testou afinação nos harmônios e tocou Aquarela do Brasil e mais trinta minutos de música carioca. Ele estava iridescente, o sol e o mar de Ipanema pareciam refletir no seu rosto! Nina Mendonza o beijou com um frenesi de fã.
Na adega ainda havia um casal isolado e no balcão encontravam-se dois homens – José Miguel Aragon e Orizon Mendez. Aragon era dono de uma rede de hotéis em Madrid  e quem patrocinava os eventos da música flamenca das aldeias.
    O violonista saiu da adega, Aragon disse para Andrezza: –“Este rapaz é um artista”!
    Ela respondeu –“E que belo artista!”
    Aragon pediu então, que Niña o convidasse para um almoço no domingo, no Bar Serralto, no centro histórico. Cândido de Assis acordou naquela manhã de Andaluzia, que  Garcia Lorca tanto cantou nos versos e harpejou no violão. Andaluzia! Andaluzia é fonte da história há mais de 3000 anos, onde até hoje se contam as lendas da música flamenca. Niña passou na pousada (...). Saíram os dois de carro em direção ao centro. No Bar Serralto já estavam: Andrezza Molina, Anita Fariña, Del Castilho e Álvaro Contreras. Logo em seguida chegou José Miguel Aragon.
    Um garçom sevilhano, com um bigode pitoresco servia o almoço. No cardápio, frutos do mar regados ao vinho e cerveja. O assunto em pauta era o investimento nas artes.
    Cândido de Assis aceitou o convite de Aragon, para tocar samba e bossa nova, numa boate de luxo de um hotel em Madrid e gravar um CD de choro para lançar no Japão, no próximo ano.
    Após a comilança, Nina e Del Castilho o convidaram para conhecer a cidade antiga de Cádiz e também o Centro da Memória Moura, local que no século XIV era apenas um espaço de terra batida. A casa de estilo neoclássico só fora erguida no final do século XIX. Com as mudanças no tempo hoje é o templo da música cigana. Ali existe um teatro para duzentas pessoas, um café-bar e quem administra essa relíquia é o violonista Álvaro Contreiras, onde ele recebe músicos, dá palestras e shows.
   No teatro Cândido de Assis olhou aquele palco e refletiu sobre a música de hoje... Álvaro Contreiras era o mestre da composição contemporânea. Cândido já conhecia bem a negritude do jazz de Nova Orleans. Agora queria tudo numa só concepção de ritmos, numa evolução harmônica moderna, com uma melodia simples, igual à palha do bambu que balança ao vento.
    O violonista ficou três meses em Cádiz estudando com Álvaro Contreiras que lhe arranjou algumas partituras do renascimento espanhol e outras de sua autoria. Cândido as tocou quando voltou ao Rio.
    Orizon Mendez era um excelente bailarino, Cândido já o tinha visto com Aragon na Pousada Molina. O namorado de Niña Mendonza, tinha cada vez mais ciúmes. Ele achava que o sol só nascia para os músicos flamencos. Fazia críticas na roda dizendo que a música brasileira não tinha o mesmo vigor da música flamenca: – “O samba é música de brasileiro e a bossa nova me dá sono. Aragon só o contratou por falta de opção.”
    Orizon era o diabo vestido de preto, com uma cinta encarnada, sapato de bico fino e chapéu de feltro caído nos olhos. Quando encontrava o brasileiro torcia a ponta do bigode, acendia um cigarro, jogava fumaça no seu rosto e o mandava cair fora, se não quisesse levar uma coça da máfia cigana. Sem se alterar, Cândido olhava nos olhos do rival e dizia: “Esse nosso amigo...!”
    Já vazava a madrugada, o violonista relia as partituras de Contreras. Quando alguém bateu na porta, ele pensou: “Este cara quer me pegar...”
    Ficou calmo, levantou-se e foi em direção à porta, com o gingado do malandro carioca e, em posição de defesa, abriu a porta de um supetão. Não era ninguém! Não viu um indivíduo da máfia cigana. Olhou... O segredo da noite estava mais para o amor, do que para a guerra. Fechou a porta, relaxou alguns minutos e voltou a tocar violão.
    Bateram outra vez!... Como um touro foi em direção à porta, decidido! Niña Mendonza entrou sem-cerimônia, deitou-se na cama e pediu um pouco de carinho... Ela tinha todos os predicados de beleza que se possa imaginar em uma moça. Cândido quis mudar a intenção da jovem, dizendo que Orizon tinha ciúmes!...
    Nina sorriu e disse:
    –“Só quero me despedir”!...
    Com uma voz dengosa continuou: – “Orizon sempre quis ser a estrela do grupo, para ele sou apenas um adereço! O que o incomoda mesmo é o seu talento, a beleza da sua música e a pessoa carinhosa que você é... Nada vai lhe acontecer! Aragon já avisou: se ele passar do limite, sabe bem com quem vai acertar contas...!”
   Cândido iria a Madrid, depois voltaria ao Brasil para gravar o CD de choro, como rezava o contrato feito com J. M. A. produções.
    Antes das cinco da manhã Cândido já estava em Málaga, preferiu viajar de trem que traz lembranças do passado, desanuvia a mente e faz pensar no futuro – já que a sorte lhe sorria e os bons ventos sopravam na sua direção.
Aragon o recebeu na boate do hotel com pouco sal na conversa... Não duvidava do virtuosismo do músico, mas o público era ímpar!
    O violonista hospedara-se num apart-hotel na expectativa da estreia do dia seguinte, que foi muito concorrida! Aragon convidou pessoas importantes, e os visitantes estrangeiros. A casa estava cheia.
    Anita Fariña e Antonio Munhol também estavam na temporada... Cândido tocava ao cair da madrugada e sempre os encontrava nos bastidores.
    Em Cádiz ele já percebera que Anita Fariña remexia os quadris e solfejava as melodias. Ela tinha lá um dengo africano, deliciava-se com o samba, queria conhecer o Rio de Janeiro e vestir-se igual às garotas de Ipanema.
    O André do clarinete, Mestre em música, Cândido o encontrou em junho de 2004, na Lapa, no centro do Rio, entre um chope e uns petiscos. No bar do Ernesto traçaram uma panorâmica do choro e escolheram o repertório dos chorões cariocas. Formaram um duo. Em seis meses gravaram um CD. O lançamento foi em Tóquio.
     Após o evento, uma japonesa de quinze anos passou pelo palco, e, estabanada, tropeçou nos fios de som com uma partitura nas mãos . Ao alcançar Cândido disse em bom português: –“Quero ir ao Brasil para estudar a obra de Ernesto Nazaré.”
     Pasmo, ele disse:
    –“Muito bem! Na minha  volta ao Brasil, após a minha temporada na Espanha,  Anita Fariña foi comigo e hoje, ela toca tamborim na escola de samba da Vila Isabel e frequenta as rodas de choro da Lapa”.
    José Miguel Aragon e Niña Mendonza também estavam presentes no lançamento do CD. Nina confessava a saudade, dizia que Orizon Mendez se envolvera numa encrenca com um forasteiro na adega Molina e, fora esfaqueado várias vezes no abdome. Álvaro Contreras recebeu um convite para dar um concerto no Rio de Janeiro, na sala Cecília Meireles, no projeto Guitarras das Américas.
    A noite passou rápida e os amantes ainda roçavam as coxas debaixo dos lençóis... Cândido iria naquele mesmo dia para a França, depois a Portugal, com o duo. Niña Mendonza voltaria à Espanha e, só na primavera voltariam a se encontrar no Rio de Janeiro.
    Cândido assistiu o concerto de Álvaro Contreras ao lado de Nina e de outros músicos. Contreras tocava canções modernas e experimentais de sua autoria.
Cândido pensou:
    “A verdade do musico é o amor à música”.
    No dia seguinte viajou para a África à procura de novos sons.

Vila das Flores


I  Catarina de Avelan era um acorde perfeito na cabeça de Eugênio Jacobina, com quem tinha aulas de piano. O músico vivia com o olho de homem e pintava os cílios da cor rubra, para seduzí-la. Uma noite, Jacobina bateu à porta de Catarina. Àquela hora só o guardião vinha!
          E ela disse: – Amore mio!
Ao abrir a porta estremeceu e instigou-o:
         – O desejo alucina, não é meu caro Jacobina?

II  O mistério trouxe um destino. Dom Eusébio percebeu as mudanças, e pensou. – Que anjo torto lhe roçou as pernas, que diabo lhe passou o rabo na alma?

III  Um ano depois Catarina voltou com Joselino no colo. Era noite! Ela o deixou com os meninos no vilarejo, nos arredores da basílica. Lá ele viveu a infância ao sabor dos ventos, longe dos bens temporais.

IV  Passaram-se os anos e Joselino ainda cuida da capela dos romeiros, não lembra mais do dia em que chegou à Vila das Flores, nem bem quando Dom Eusébio lhe dizia. – Ajoelhe-se! E ele estava sempre pronto a obedecer.

V  As mortes de Catarina de Avelan e de Dom Eusébio Bambino deixaram um abismo que a reflexão pondera e recria a cada instante.

VI  Na breve distância que vai até o riacho, Joselino iluminou-se com os raios do sol lilás. Uma porta se abriu. Uma árvore desfolhou-se no jardim, ao som de um coral que vinha do solar dos monges.

VII  Na memória as imagens transformaram-se em aves, formaram a paisagem idílica das correntezas e fizeram-no lembrar dos dias árduos nos corredores da basílica... E, num embate na tensão de um bordão de aço às margens do riacho, homens cor da terra impediram-nas que o levassem para o enigma da sombra. 

VIII  Joselino sucumbia pouco a pouco ao pé da árvore. As tempestades o deixaram na balada da chuva para minimizar a dureza da sombra que, durante três noites, num círculo perto de uma cova, secamente dizia – nunca mais!

IX  Diante da árvore-imagem aniquilou a existência ao sono luado das ovelhas no deserto, como uma folha tocada pelo vento do verão.

X  Agora, Joselino faz parte do verso do poeta fingidor, que na cena queria que ele fosse apenas um desenho no mural das formas, uma estrela na reinvenção do passado.

XI  O último suspiro integrou-se ao silêncio. O corpo dissolveu-se no outono, num ambiente úmido, e fertilizou as roseiras. As águas escorreram entre os juncos e caíram no riacho por onde passa a vida. Os ossos ficaram ao pé da velha ingazeira. O nada preencheu o espaço e a beleza em movimento perdeu-se aos olhos nus da natureza.

XII No jardim viram um vulto indo na lividez da tarde, talvez para ouvir as queixas dos viajantes que vinham à capela dos romeiros, para encontrar o elo entre este mundo e a metáfora de Deus.

Amigos e poetas, Paulo Torres e Manoel Moreno, colocam à disposição da rede mundial de computadores a sua produção artítica.