ESTRUTURAS POÉTICAS
Livro publicado pela Papel & Tinta, no Rio de Janeiro – 1997
Entardecer
Em nossos olhos
Guardemos estas lembranças.
E voemos pra longe
Como dois pássaros ladrões.
Depois fiquemos assim, pairando,
Entre as nuvens tênues das ilusões.
Finjamos que este azul todo
É nosso pra sempre.
E que pra sempre estaremos
A ouvir suaves canções.
Esqueçamos que tudo
É só um breve instante.
Um momento fugidio
Que se esvai,
Que a nossa vida
É esse fugaz lampejo
Que logo se desfaz em nada
E não retorna mais.
Por de sol em Mykonos.
Foto de Noemi Ribeiro
Em nossos olhos
Guardemos estas lembranças.
E voemos pra longe
Como dois pássaros ladrões.
Depois fiquemos assim, pairando,
Entre as nuvens tênues das ilusões.
Finjamos que este azul todo
É nosso pra sempre.
E que pra sempre estaremos
A ouvir suaves canções.
Esqueçamos que tudo
É só um breve instante.
Um momento fugidio
Que se esvai,
Que a nossa vida
É esse fugaz lampejo
Que logo se desfaz em nada
E não retorna mais.
Por de sol em Mykonos.
Foto de Noemi Ribeiro
Tirésias
Os claros caminhos
Se perdem nas brumas.
Só ele, o sábio, os vê
E por eles, livre, caminha,
Com seus olhos - neblina.
Dele é o dom e a verdade
Que paira longe do tempo
Na claridade das trevas.
Nossa é a dor e a sina
Do longo tempo de penas
Nas trevas da claridade.
Templo de Artemísia em Ephesus, Turquia.
Foto de Noemi Ribeiro.
Os claros caminhos
Se perdem nas brumas.
Só ele, o sábio, os vê
E por eles, livre, caminha,
Com seus olhos - neblina.
Dele é o dom e a verdade
Que paira longe do tempo
Na claridade das trevas.
Nossa é a dor e a sina
Do longo tempo de penas
Nas trevas da claridade.
Templo de Artemísia em Ephesus, Turquia.
Foto de Noemi Ribeiro.
Esfinge
Devora-me sem decifrar-me,
Pétrea mulher alada,
Pois de mim nada quero
A não ser querer-te
Como quero que me queiras.
Devolva-me a mim
Ao devorar-me
Pois onde estou não sou
Senão as penas por não encontrar-te.
Desfaça as tramas que me sufocam
Ao devorar-me
Pois ao desfazer-me no teu ventre indecifrável
Nada serei senão o desvendar-me
E – quem sabe – então saberei amar-te.
Esfinge - cerâmica grega V.a.C.
Devora-me sem decifrar-me,
Pétrea mulher alada,
Pois de mim nada quero
A não ser querer-te
Como quero que me queiras.
Devolva-me a mim
Ao devorar-me
Pois onde estou não sou
Senão as penas por não encontrar-te.
Desfaça as tramas que me sufocam
Ao devorar-me
Pois ao desfazer-me no teu ventre indecifrável
Nada serei senão o desvendar-me
E – quem sabe – então saberei amar-te.
Esfinge - cerâmica grega V.a.C.
Laio
Quem é esse que passou
Sem que eu quisesse
E, ao passar, matou-me?
Quando o matei sem que soubesse?
Quem é esse que me amou
Sem que eu pedisse
E, ao pedir-me amor, perdeu-me
Por não me saber perdido?
Quem é esse que me viu
Sem que eu pudesse vê-lo
E, ao velar-se quedo,
Arrancou-me a luz e me lançou no medo?
Adonis. 410 a.C.
Florença, Museu Arqueológico.
Quem é esse que passou
Sem que eu quisesse
E, ao passar, matou-me?
Quando o matei sem que soubesse?
Quem é esse que me amou
Sem que eu pedisse
E, ao pedir-me amor, perdeu-me
Por não me saber perdido?
Quem é esse que me viu
Sem que eu pudesse vê-lo
E, ao velar-se quedo,
Arrancou-me a luz e me lançou no medo?
Adonis. 410 a.C.
Florença, Museu Arqueológico.
Kouros
Pétreo despido corpo
Diante de mim desperto,
O que me despertas?
Percebo
A levíssima ironia
Que te orna os lábios.
Por que?
Por que me fitas?
Não, não me fitas...
O olhar
De teus olhos amendoados,
Sorrindo, transpassa-me,
Fere-me por me ignorar
E se perde
No oracular segredo
De um tempo ausente,
Onde nunca estive
E jamais poderei estar.
Invejo o que és
Não sendo. Invejo
A arquetípica simetria
De tua milenar juventude;
A exposta clareza
De tua perpétua virilidade:
A sólida liberdade
De teu corpo idealizado.
Invejo-te...
Eu, que sou...
Mas, quem sou?
Sou quem olha,
E, ao olhar-te,
Percebo
Meus limites transitórios.
O levíssimo sorriso
Que, por ironia,
Me orna os lábios,
Orla a tristeza
Do crepúsculo inevitável.
O esboço estático
Do teu passo,
Jovem efebo,
És teu eterno recomeço.
Eu passo
E envelheço.
Tua verdade é, e nem existe.
Eis porque tanto te desejo:
Tu persistes,
Eu pereço.
Kouros. 500 anos a.C.
Atenas, Museu Nacional.
Pétreo despido corpo
Diante de mim desperto,
O que me despertas?
Percebo
A levíssima ironia
Que te orna os lábios.
Por que?
Por que me fitas?
Não, não me fitas...
O olhar
De teus olhos amendoados,
Sorrindo, transpassa-me,
Fere-me por me ignorar
E se perde
No oracular segredo
De um tempo ausente,
Onde nunca estive
E jamais poderei estar.
Invejo o que és
Não sendo. Invejo
A arquetípica simetria
De tua milenar juventude;
A exposta clareza
De tua perpétua virilidade:
A sólida liberdade
De teu corpo idealizado.
Invejo-te...
Eu, que sou...
Mas, quem sou?
Sou quem olha,
E, ao olhar-te,
Percebo
Meus limites transitórios.
O levíssimo sorriso
Que, por ironia,
Me orna os lábios,
Orla a tristeza
Do crepúsculo inevitável.
O esboço estático
Do teu passo,
Jovem efebo,
És teu eterno recomeço.
Eu passo
E envelheço.
Tua verdade é, e nem existe.
Eis porque tanto te desejo:
Tu persistes,
Eu pereço.
Kouros. 500 anos a.C.
Atenas, Museu Nacional.
Deuses
Eu e meus eus,
Afrodite e ares,
Eros e Tânatos,
Assombramos
Na cálida noite
A solidão
Do meu corpo desnudo,
Leito
De gozo e agonia
Dos meus corpos
Inúmeros.
Afrodite no banho - cópia romana.
Museu Vaticano, Roma.
Eu e meus eus,
Afrodite e ares,
Eros e Tânatos,
Assombramos
Na cálida noite
A solidão
Do meu corpo desnudo,
Leito
De gozo e agonia
Dos meus corpos
Inúmeros.
Afrodite no banho - cópia romana.
Museu Vaticano, Roma.
Koré
Jovem mulher antiga
De tranças ornada
E arcaico sorriso
Fascina-me olhar-te.
Imagino que me olhas
E, por querer, me ofertas
Os segredos de tua arte.
Não, não me queres...
Tu és quantas mulheres?
Dói-me ver que te ocultas
Sob o indefinível matiz
Das dobras de tua veste.
O que, em silêncio,
Tua forma declara
E, delicada, não diz!
À tua frente imóvel,
Transido de medo,
Ansioso espero
Quero o claro teu corpo
Se revele
Para sonhá-lo inteiro
Sobre o mármore da minha pele.
Vejo-te em parte,
Partido me vejo,
Em fragmentos me perco
E não vejo onde estou.
Devo partir para encontrar-me
E recriar no encontro
As partes que o tempo roubou...
Refazer os teus braços,
Envolver-me com eles,
Sentir tuas mãos renascidas
Afagar-me os cabelos.
Dói-me ver que oculta
Sob as dobras do meu passado,
Tua imagem silente
E que não posso alcançá-la
Sem descobrir meu presente.
Mas te olho
E, por te olhar,
Me vejo eterno contigo.
Eis o que me ofertas.
Tua arte é meu abrigo.
Em ti estarei para sempre
Mesmo quando nada mais for.
E despido repousarei em teu seio
Como no seio do paraíso.
Serei então tuas tranças,
Olharei por teus olhos
E ornarei tua boca
Com a tranquila dor do meu sorriso.
Nascimento de Afrodite - sec. V a.C
Roma, Museu Nacional.
Jovem mulher antiga
De tranças ornada
E arcaico sorriso
Fascina-me olhar-te.
Imagino que me olhas
E, por querer, me ofertas
Os segredos de tua arte.
Não, não me queres...
Tu és quantas mulheres?
Dói-me ver que te ocultas
Sob o indefinível matiz
Das dobras de tua veste.
O que, em silêncio,
Tua forma declara
E, delicada, não diz!
À tua frente imóvel,
Transido de medo,
Ansioso espero
Quero o claro teu corpo
Se revele
Para sonhá-lo inteiro
Sobre o mármore da minha pele.
Vejo-te em parte,
Partido me vejo,
Em fragmentos me perco
E não vejo onde estou.
Devo partir para encontrar-me
E recriar no encontro
As partes que o tempo roubou...
Refazer os teus braços,
Envolver-me com eles,
Sentir tuas mãos renascidas
Afagar-me os cabelos.
Dói-me ver que oculta
Sob as dobras do meu passado,
Tua imagem silente
E que não posso alcançá-la
Sem descobrir meu presente.
Mas te olho
E, por te olhar,
Me vejo eterno contigo.
Eis o que me ofertas.
Tua arte é meu abrigo.
Em ti estarei para sempre
Mesmo quando nada mais for.
E despido repousarei em teu seio
Como no seio do paraíso.
Serei então tuas tranças,
Olharei por teus olhos
E ornarei tua boca
Com a tranquila dor do meu sorriso.
Nascimento de Afrodite - sec. V a.C
Roma, Museu Nacional.
Inominado 3
Vida, dádiva
Divina!
Dádiva?
Divina?
Dúvida
Devida.
Descida!
Vida:
Dever?
Devir?
Delírio?
Descida
Desde o entrar
Até a saída.
E deus nunca houve
Que estivesse a olhar.
Vida, dádiva
Divina!
Dádiva?
Divina?
Dúvida
Devida.
Descida!
Vida:
Dever?
Devir?
Delírio?
Descida
Desde o entrar
Até a saída.
E deus nunca houve
Que estivesse a olhar.
Inominado 4
Quebrou-se a xícara
De porcelana da China,
Porcelana fina.
Não importa
Eu não gosto de chá.
Quebrou-se a xícara
De porcelana da China,
Porcelana fina.
Não importa
Eu não gosto de chá.
Inominado 5
Manhã de repente!
Ergo-me, invade-me o sol.
Ergo sum!
Invadem-me fátuas crenças.
Cogito em mim crescer,
Crescer com o nascente…
No quarto o armário, o espelho
Na manhã de repente
Desmente:
Em mim o sol é poente.
Manhã de repente!
Ergo-me, invade-me o sol.
Ergo sum!
Invadem-me fátuas crenças.
Cogito em mim crescer,
Crescer com o nascente…
No quarto o armário, o espelho
Na manhã de repente
Desmente:
Em mim o sol é poente.