Dissipação
Longa rua deserta.
Noite, neblina, solidão
Sons sutis
No silêncio entretecidos -
Murmúrios vagos de uma harpa,
Raros sussurros de um gongo.
Fantasmas invisíveis vagueiam
Em busca do tempo.
E o tempo não há.
E nada há,
Nem mesmo a ilusão
Ou o desalento
Da longa rua imaginária,
Deserta na solidão.
Inominado 20
Ele se vê só e profundo
Como o solo de um celo
Flutuando sobre o mar.
E na solidão abraça o mundo
Como um perfume sutil
Que tudo envolve
Mas não se deixa revelar.
Modinha
Pudesse eu de novo ficar
Frente a frente contigo,
Pudesse então revelar
Tudo o que sinto e não digo.
Pudesse fazer-te saber
Que imerso nesta dor
Sofro e não encontro abrigo,
Pois em teu coração não abrigas
Os suspiros do meu amor.
Pudesse eu não me ver
Perdido como me vejo agora
Pudesse eu não saber
Que resta apenas ir-me embora
Pois de mim só o que viste
Foi um vulto, um semblante triste,
Que nada soube dizer,
Quando de leve sorriste.
E este silêncio interposto
Entre o teu olhar e o meu
Fez uma sombra em teu rosto
E o sorriso morreu.
Mas não morreu a esperança
De meu amor revelar.
Ah! Pudesse mais uma vez,
Contigo frente a frente
Eu de novo ficar!
Qohelet XXI
Mais um dia,
O sol de sempre.
Mais uma noite,
Nada de novo -
Estática inquietude,
Minha insônia habitual,
Minha habitual estranheza.
Não sei o que sou,
O que faço no mundo.
Não estou de pé, não flutuo,
Não caí na rede,
Afundo.
Mais um dia,
Sempre o sol.
Dia em branco,
Vida apagada,
Falta de ar.
A tela do notebook,
Hipnose matutina
Em alta definição:
As crueldades cotidianas,
Os humanos afazeres.
Lá fora, nas academias envidraçadas,
Os bem-aventurados
Dançam tarantelas aeróbicas.
Mais um dia,
Mais uma noite
A se repetir
E nada persiste.
Quase cochilo
Devaneio flautas de Pã,
Suaves, pagãs.
Ali, no fundo do quarto,
Acena-me, talvez,
Um fauno sorridente.
Não... Eros há muito se foi...
Desconexões neuronais, apenas.
Tudo é silício.
Oceano eletromagnético
Que desfaz
Palavras, corpos,
A ilusão da alma.
Trama mal urdida,
Nós – cegos, virtuais,
Dispersos, inúteis
No tempo sem espaço.
Cordas evanescentes
Num campo de forças unificado -
Ditos que nada dizem.
Vaidade das vaidades...
Eis o que contemplo
Com a inquietude habitual
Da minha insônia, do meu cansaço.
Inominado 21
A brisa da tarde
Levou o resto da chuva
E deixou um perfume de terra
Tão fugaz, tão leve...
Um breve sorriso
Da quietude eterna.
Nomes
Palavras...
Tão inúteis.
Que podem elas dizer
Acerca do ruído da chuva
Ao entardecer,
Acerca do silêncio do pássaro
Pousado no ramo,
Acerca do frio
Na manhã orvalhada,
Acerca do azul,
Qualquer azul, em qualquer lugar,
Que podem?
Acerca do arrepio
Que percorre a vida,
Acerca do amar,
Acerca do morrer...
Que podem?
Quase nada.
Alívio, ilusões,
Jogos de cena,
Nomes...
O que é
Está em tudo,
Inominável,
Mudo,
Além do dizer.
Call me Ishmael
Quando a solidão e o silêncio da madrugada
Assombram-me com a indiferença do mundo,
Quando as tristes folhas do outono
Mostram-me a ilusão da permanência,
Quando a chuva e o vento sobre os telhados
Deixam-me a alma transida de medo,
Quando os miseráveis e os bêbados das ruas
Matam-me a compaixão e me embriagam de tédio,
Quando o alvoroço da discórdia e o sangue das guerras
Tingem-me os olhos com as lágrimas do horror,
Então
Busco a vastidão do mar,
Um oceano imaginário onde flutuam estrelas
E seres alados se dispersam nas profundezas,
Onde não há palavras, só o canto das sereias,
Onde naus sem velas singram entre flores e planetas,
Onde não se levam bússolas, nem se buscam verdades,
Pois todas as vagas perduram num infinito agora,
Onde o depois é também o antes,
Onde todos os sons são cores e todas as cores rimam
Entre as ondas da indizível poesia
Que reverbera nos corações dos navegantes.
Horas da noite
Parede branca
Relógio-olho
Números romanos
Pêndulo oculto
Ruído sempre igual
Castanholado opaco
Lento
Do tempo aprisionado
No espaço restrito
Da sala
Tempo estático
Ponteiros se movendo
Parados
XI
Que fazer desta vida arrasada,
Ela se foi,
Outras também.
Aos poucos todos se vão.
Caminha, Joãozinho, até o copo
E verte sobre o gelo
A líquida ilusão dourada.
Parece chá...
Quando fauço chá, fauço chá,
Quando fauço água, fauço água,
Traduziu Houaiss,
Que traz este falso chá?
Só o ponto de interrogação.
Só? Nada mais?
Andar à toa por cemitérios e bordéis.
Leva-me, santo, além das horas.
Lá fora, dez andares abaixo,
Descer pela janela é vulgar.
Uma língua de asfalto,
Coleópteros metálicos correndo.
Calçadas, micro-bípedes passando,
Mistérios.
Em frente - colméias de concreto.
Janelinhas acesas e apagadas,
Mistérios insondáveis,
Crimes inconfessos,
Vidas se movendo
Paradas.
A falta que faz uma teleobjetiva.
Aqui, Samsa toma um gole,
Olha a barriga lobulada,
E pensa em Grace Kelly.
XII
Um sino,
Mezzanotte!
Sia maledetta la strega,
La strega infernal!
Ahhh!
Vida, uma ópera,
O bruxo disse.
Ela se foi
E, antes dela, outras.
Fidelíssimas Leonoras,
Infidelíssimas Carmens,
Infelicíssimas Neddas,
Tolos tenores,
Barítonos velhacos,
Un altro sorso...
Amores
O res ridicula...
Ódios
O res ridicula.
Vida
O res ridicula...
Morte...
Todos se vão,
Aos poucos,
À francesa.
A morte nunca é súbita,
Vão tirando nacos
Esses audaciosos que ousam deixar-te,
Que ousam morrer
Antes de ti,
Esses, que tanto querias
E que se vão sem nada dizer,
Canibais,
Reduzem teu corpo a lembranças
Irremovíveis, inalcançáveis...
Morre-se aos poucos
Cada vez que se respira.
Apaga a luz da sala,
Cambaleia às escuras no palco,
Bebe mais,
Tira a roupa, fica nu,
Vesti la giubba.
I
Quarto copo vazio.
Sobre o carpete manchado
O Buda encharcado,
Sentado,
Olhar bovino, beatificado.
Bebe mais, Buda,
Deixa os olhos injetados
Contemplarem além dos véus de Maia.
Nada há ali.
Tudo está aqui nesta sala,
Nesta cela,
Huis clos.
Ou então deixa os olhos bem fechados,
Deixa-os valsar por entre a multidão
Dos teus fantasmas,
São apenas os teus fantasmas,
Entoando melopéias
Que bordam o pranto
Da tua definitiva solidão.
Não sabes as senhas
De entrada ou saída,
Estás aqui e depois não estarás mais.
Só isso.
Ela se foi, eles se foram.
De nada adianta teu querer,
Tua vontade e outras fanfarronices.
Todos te são desconhecidos,
Todos te desconhecem,
Para sempre.
Bebe mais um pouco.
II
Chove
Lá fora
Mas não há a voz
Suave da cantora
Para amenizar o frio
E desfazer o silêncio.
Céu de negro granito.
Ele se estende no sofá.
O olhar perdido,
Uma tela de Freud:
Homem com o rato na mão,
Sem o rato.
Busca no teto
faixa vaporosa da via láctea.
Passeia a mão pela via dolorosa
De seu corpo.
Aos poucos tudo se esvai em esquecimento.
Filme em preto e branco,
Dissolvência.
III
Salomé dança langorosa.
Um a um os véus se soltam,
Adejam no ar almiscarado
E então repousam sobre as lajes.
Afaga o sexo com uma rosa.
Os cabelos soltos se revoltam
Por sobre o rosto acarminado.
Tu a vês e não reages.
Crias esta cena neblinosa
Em sonhos que sempre voltam.
Tu, tetrarca nu e amargurado,
De solidão e dor fazes teus trajes.
Não se criem mais rimas neste sonho,
Nada rima em tua vida.
Acorda para este silêncio tão tristonho,
E bebe, e espera a única saída.
Nada tens,
O tempo te transpassa, não te pertence,
E se olhas o céu pela janela
Não decifras o teu mistério.
As vagas estrelas da Ursa,
Que acalentaram o jovem gênio,
Não brilham neste hemisfério.
IV
Como era linda Claudia Cardinale
Como gostaria de ver os olhos de Capitu
Onde estás, Lésbia,
Da me basia
Como seria o beijo de Tosca
A divina Sarah feriu-se no Rio
E começou a morrer...
Como estás bêbado, Samsa
Põe aí um ponto de exclamação
Uma ereção gráfica
A garrafa está vazia
A sala está vazia
A vida é tão vazia
A noite está tão fria
Lá fora continua a chover
Percebeste agora esta extra-sístole
Tens ainda um coração...
Para quê...
Estás a estalar, coração.
Ser ou não ser
É preferível não
Não, não
Não sei o que sou
Espantam-me as crenças
E as descrenças
Desconheço os êxtases dos santos
Porém, compreendo,
Sim, compreendo
O horror do senhor Kurtz.
Vai dormir, Joãozinho!
V
.............
O relógio imperturbável
Persiste no truque monótono
Movendo os ponteiros parados.
O tempo sempre o mesmo
Nunca o mesmo.
No mar distante
Acima do horizonte
As estrelas vão empalidecendo
E um avermelhado quase imperceptível
Começa a dar fim à madrugada.
“... Não, é impossível; é impossível transmitir a sensação de vida de qualquer época específica de nossa existência – aquilo que perfaz a sua verdade, o seu significado – a sua essência sutil e penetrante. É impossível. Vivemos tal como sonhamos – em solidão...”
Joseph Conrad – O coração das trevas (trad. Luciano Alves Meira)
Os sapatos de Artaud
Horror!
Não me encontro!
Procuro-me nos armários,
Nas gavetas,
Nos livros,
Nas malas,
Embaixo da cama...
Nada, nada!
Busco-me nos bolsos!
Não há bolsos,
Estou nu!
Procuro o celular,
Telefono-me.
Caixa postal.
Que fazer?
Prosseguir?
Continuar na minha ausência.
É manhã:
Ensaboar-me,
Dentescovar-me,
Tricolavar-me,
Axilodesorantizar-me,
Epidermoaromatizar-me,
Enxugar-me,
Pentear-me,
Vestir-me
Com cuidado burguês
E sair.
Lá fora as ilusórias verdades cotidianas,
Imanências e transcendências,
Legumes na feira livre.
Melhor assim,
Esqueço-me de que não me achei.
Olho, besta, pro espelho.
Que é isto?
Isso, aquilo, aquele?
Vade retro!
Quanta flacidez,
Quanta ruga,
Gargântua!
Encolho a barriga
Com desfaçatez sutil.
Assim, sim!
Nem assim:
Púbis grisalho.
Tudo escondido,
Tudo de fora,
Tudo perdido,
Eu inclusive,
Neste sempre agora.
Nada ainda foi dito
E nada mais há para dizer,
Como disse Beckett, acho.
Não, não vale me iludir,
Não convém me achar.
Quem se acha perde-se também,
Leva um susto danado,
Desliga a televisão,
Fecha o laptop,
Vagueia por nirvanas inexistentes,
Dá-se à licantropia
E fica a uivar para a lua.
Então...
Vêm doutos e exorcistas
Para erradicar a cura:
Alquimias, cruzes,
Impregnações, passes, análises
E outros espalhafatos.
Até que se cansam,
Saem do picadeiro
E deixam o freak no sanatório
Para ser encontrado um dia
À beira da cama,
Rindo sem respirar,
De olhos abertos,
Agarrado aos sapatos!
Orientais
1
Velha janela aberta
Neblina e a tarde fria
Olhos vendo o silêncio
2
Borboleta azul
Pousada na folha verde
Tempo em quietude
3
Rosas murchando
Sobre a lápide negra
Céu de perfeito azul
4
Vinho rubro na taça
Solidão vincada no rosto
Amor desfeito em fumaça
5
Pequena flor branca
Entre as pedras da ruína
Vida a rir em surdina
Três Orientais com sabores
1
Aroma de café
Lembranças da fazenda
Bois quietos no pasto
2
Bolo de laranja
Uma sonata de Mozart
Chá no paraíso
3
Chocolate quente
Bidú cantando Bellini
Céu mais que perfeito
Longa rua deserta.
Noite, neblina, solidão
Sons sutis
No silêncio entretecidos -
Murmúrios vagos de uma harpa,
Raros sussurros de um gongo.
Fantasmas invisíveis vagueiam
Em busca do tempo.
E o tempo não há.
E nada há,
Nem mesmo a ilusão
Ou o desalento
Da longa rua imaginária,
Deserta na solidão.
Inominado 20
Ele se vê só e profundo
Como o solo de um celo
Flutuando sobre o mar.
E na solidão abraça o mundo
Como um perfume sutil
Que tudo envolve
Mas não se deixa revelar.
Modinha
Pudesse eu de novo ficar
Frente a frente contigo,
Pudesse então revelar
Tudo o que sinto e não digo.
Pudesse fazer-te saber
Que imerso nesta dor
Sofro e não encontro abrigo,
Pois em teu coração não abrigas
Os suspiros do meu amor.
Pudesse eu não me ver
Perdido como me vejo agora
Pudesse eu não saber
Que resta apenas ir-me embora
Pois de mim só o que viste
Foi um vulto, um semblante triste,
Que nada soube dizer,
Quando de leve sorriste.
E este silêncio interposto
Entre o teu olhar e o meu
Fez uma sombra em teu rosto
E o sorriso morreu.
Mas não morreu a esperança
De meu amor revelar.
Ah! Pudesse mais uma vez,
Contigo frente a frente
Eu de novo ficar!
Qohelet XXI
Mais um dia,
O sol de sempre.
Mais uma noite,
Nada de novo -
Estática inquietude,
Minha insônia habitual,
Minha habitual estranheza.
Não sei o que sou,
O que faço no mundo.
Não estou de pé, não flutuo,
Não caí na rede,
Afundo.
Mais um dia,
Sempre o sol.
Dia em branco,
Vida apagada,
Falta de ar.
A tela do notebook,
Hipnose matutina
Em alta definição:
As crueldades cotidianas,
Os humanos afazeres.
Lá fora, nas academias envidraçadas,
Os bem-aventurados
Dançam tarantelas aeróbicas.
Mais um dia,
Mais uma noite
A se repetir
E nada persiste.
Quase cochilo
Devaneio flautas de Pã,
Suaves, pagãs.
Ali, no fundo do quarto,
Acena-me, talvez,
Um fauno sorridente.
Não... Eros há muito se foi...
Desconexões neuronais, apenas.
Tudo é silício.
Oceano eletromagnético
Que desfaz
Palavras, corpos,
A ilusão da alma.
Trama mal urdida,
Nós – cegos, virtuais,
Dispersos, inúteis
No tempo sem espaço.
Cordas evanescentes
Num campo de forças unificado -
Ditos que nada dizem.
Vaidade das vaidades...
Eis o que contemplo
Com a inquietude habitual
Da minha insônia, do meu cansaço.
Inominado 21
A brisa da tarde
Levou o resto da chuva
E deixou um perfume de terra
Tão fugaz, tão leve...
Um breve sorriso
Da quietude eterna.
Nomes
Palavras...
Tão inúteis.
Que podem elas dizer
Acerca do ruído da chuva
Ao entardecer,
Acerca do silêncio do pássaro
Pousado no ramo,
Acerca do frio
Na manhã orvalhada,
Acerca do azul,
Qualquer azul, em qualquer lugar,
Que podem?
Acerca do arrepio
Que percorre a vida,
Acerca do amar,
Acerca do morrer...
Que podem?
Quase nada.
Alívio, ilusões,
Jogos de cena,
Nomes...
O que é
Está em tudo,
Inominável,
Mudo,
Além do dizer.
Call me Ishmael
Quando a solidão e o silêncio da madrugada
Assombram-me com a indiferença do mundo,
Quando as tristes folhas do outono
Mostram-me a ilusão da permanência,
Quando a chuva e o vento sobre os telhados
Deixam-me a alma transida de medo,
Quando os miseráveis e os bêbados das ruas
Matam-me a compaixão e me embriagam de tédio,
Quando o alvoroço da discórdia e o sangue das guerras
Tingem-me os olhos com as lágrimas do horror,
Então
Busco a vastidão do mar,
Um oceano imaginário onde flutuam estrelas
E seres alados se dispersam nas profundezas,
Onde não há palavras, só o canto das sereias,
Onde naus sem velas singram entre flores e planetas,
Onde não se levam bússolas, nem se buscam verdades,
Pois todas as vagas perduram num infinito agora,
Onde o depois é também o antes,
Onde todos os sons são cores e todas as cores rimam
Entre as ondas da indizível poesia
Que reverbera nos corações dos navegantes.
Horas da noite
Parede branca
Relógio-olho
Números romanos
Pêndulo oculto
Ruído sempre igual
Castanholado opaco
Lento
Do tempo aprisionado
No espaço restrito
Da sala
Tempo estático
Ponteiros se movendo
Parados
XI
Que fazer desta vida arrasada,
Ela se foi,
Outras também.
Aos poucos todos se vão.
Caminha, Joãozinho, até o copo
E verte sobre o gelo
A líquida ilusão dourada.
Parece chá...
Quando fauço chá, fauço chá,
Quando fauço água, fauço água,
Traduziu Houaiss,
Que traz este falso chá?
Só o ponto de interrogação.
Só? Nada mais?
Andar à toa por cemitérios e bordéis.
Leva-me, santo, além das horas.
Lá fora, dez andares abaixo,
Descer pela janela é vulgar.
Uma língua de asfalto,
Coleópteros metálicos correndo.
Calçadas, micro-bípedes passando,
Mistérios.
Em frente - colméias de concreto.
Janelinhas acesas e apagadas,
Mistérios insondáveis,
Crimes inconfessos,
Vidas se movendo
Paradas.
A falta que faz uma teleobjetiva.
Aqui, Samsa toma um gole,
Olha a barriga lobulada,
E pensa em Grace Kelly.
XII
Um sino,
Mezzanotte!
Sia maledetta la strega,
La strega infernal!
Ahhh!
Vida, uma ópera,
O bruxo disse.
Ela se foi
E, antes dela, outras.
Fidelíssimas Leonoras,
Infidelíssimas Carmens,
Infelicíssimas Neddas,
Tolos tenores,
Barítonos velhacos,
Un altro sorso...
Amores
O res ridicula...
Ódios
O res ridicula.
Vida
O res ridicula...
Morte...
Todos se vão,
Aos poucos,
À francesa.
A morte nunca é súbita,
Vão tirando nacos
Esses audaciosos que ousam deixar-te,
Que ousam morrer
Antes de ti,
Esses, que tanto querias
E que se vão sem nada dizer,
Canibais,
Reduzem teu corpo a lembranças
Irremovíveis, inalcançáveis...
Morre-se aos poucos
Cada vez que se respira.
Apaga a luz da sala,
Cambaleia às escuras no palco,
Bebe mais,
Tira a roupa, fica nu,
Vesti la giubba.
I
Quarto copo vazio.
Sobre o carpete manchado
O Buda encharcado,
Sentado,
Olhar bovino, beatificado.
Bebe mais, Buda,
Deixa os olhos injetados
Contemplarem além dos véus de Maia.
Nada há ali.
Tudo está aqui nesta sala,
Nesta cela,
Huis clos.
Ou então deixa os olhos bem fechados,
Deixa-os valsar por entre a multidão
Dos teus fantasmas,
São apenas os teus fantasmas,
Entoando melopéias
Que bordam o pranto
Da tua definitiva solidão.
Não sabes as senhas
De entrada ou saída,
Estás aqui e depois não estarás mais.
Só isso.
Ela se foi, eles se foram.
De nada adianta teu querer,
Tua vontade e outras fanfarronices.
Todos te são desconhecidos,
Todos te desconhecem,
Para sempre.
Bebe mais um pouco.
II
Chove
Lá fora
Mas não há a voz
Suave da cantora
Para amenizar o frio
E desfazer o silêncio.
Céu de negro granito.
Ele se estende no sofá.
O olhar perdido,
Uma tela de Freud:
Homem com o rato na mão,
Sem o rato.
Busca no teto
faixa vaporosa da via láctea.
Passeia a mão pela via dolorosa
De seu corpo.
Aos poucos tudo se esvai em esquecimento.
Filme em preto e branco,
Dissolvência.
III
Salomé dança langorosa.
Um a um os véus se soltam,
Adejam no ar almiscarado
E então repousam sobre as lajes.
Afaga o sexo com uma rosa.
Os cabelos soltos se revoltam
Por sobre o rosto acarminado.
Tu a vês e não reages.
Crias esta cena neblinosa
Em sonhos que sempre voltam.
Tu, tetrarca nu e amargurado,
De solidão e dor fazes teus trajes.
Não se criem mais rimas neste sonho,
Nada rima em tua vida.
Acorda para este silêncio tão tristonho,
E bebe, e espera a única saída.
Nada tens,
O tempo te transpassa, não te pertence,
E se olhas o céu pela janela
Não decifras o teu mistério.
As vagas estrelas da Ursa,
Que acalentaram o jovem gênio,
Não brilham neste hemisfério.
IV
Como era linda Claudia Cardinale
Como gostaria de ver os olhos de Capitu
Onde estás, Lésbia,
Da me basia
Como seria o beijo de Tosca
A divina Sarah feriu-se no Rio
E começou a morrer...
Como estás bêbado, Samsa
Põe aí um ponto de exclamação
Uma ereção gráfica
A garrafa está vazia
A sala está vazia
A vida é tão vazia
A noite está tão fria
Lá fora continua a chover
Percebeste agora esta extra-sístole
Tens ainda um coração...
Para quê...
Estás a estalar, coração.
Ser ou não ser
É preferível não
Não, não
Não sei o que sou
Espantam-me as crenças
E as descrenças
Desconheço os êxtases dos santos
Porém, compreendo,
Sim, compreendo
O horror do senhor Kurtz.
Vai dormir, Joãozinho!
V
.............
O relógio imperturbável
Persiste no truque monótono
Movendo os ponteiros parados.
O tempo sempre o mesmo
Nunca o mesmo.
No mar distante
Acima do horizonte
As estrelas vão empalidecendo
E um avermelhado quase imperceptível
Começa a dar fim à madrugada.
“... Não, é impossível; é impossível transmitir a sensação de vida de qualquer época específica de nossa existência – aquilo que perfaz a sua verdade, o seu significado – a sua essência sutil e penetrante. É impossível. Vivemos tal como sonhamos – em solidão...”
Joseph Conrad – O coração das trevas (trad. Luciano Alves Meira)
Os sapatos de Artaud
Horror!
Não me encontro!
Procuro-me nos armários,
Nas gavetas,
Nos livros,
Nas malas,
Embaixo da cama...
Nada, nada!
Busco-me nos bolsos!
Não há bolsos,
Estou nu!
Procuro o celular,
Telefono-me.
Caixa postal.
Que fazer?
Prosseguir?
Continuar na minha ausência.
É manhã:
Ensaboar-me,
Dentescovar-me,
Tricolavar-me,
Axilodesorantizar-me,
Epidermoaromatizar-me,
Enxugar-me,
Pentear-me,
Vestir-me
Com cuidado burguês
E sair.
Lá fora as ilusórias verdades cotidianas,
Imanências e transcendências,
Legumes na feira livre.
Melhor assim,
Esqueço-me de que não me achei.
Olho, besta, pro espelho.
Que é isto?
Isso, aquilo, aquele?
Vade retro!
Quanta flacidez,
Quanta ruga,
Gargântua!
Encolho a barriga
Com desfaçatez sutil.
Assim, sim!
Nem assim:
Púbis grisalho.
Tudo escondido,
Tudo de fora,
Tudo perdido,
Eu inclusive,
Neste sempre agora.
Nada ainda foi dito
E nada mais há para dizer,
Como disse Beckett, acho.
Não, não vale me iludir,
Não convém me achar.
Quem se acha perde-se também,
Leva um susto danado,
Desliga a televisão,
Fecha o laptop,
Vagueia por nirvanas inexistentes,
Dá-se à licantropia
E fica a uivar para a lua.
Então...
Vêm doutos e exorcistas
Para erradicar a cura:
Alquimias, cruzes,
Impregnações, passes, análises
E outros espalhafatos.
Até que se cansam,
Saem do picadeiro
E deixam o freak no sanatório
Para ser encontrado um dia
À beira da cama,
Rindo sem respirar,
De olhos abertos,
Agarrado aos sapatos!
Orientais
1
Velha janela aberta
Neblina e a tarde fria
Olhos vendo o silêncio
2
Borboleta azul
Pousada na folha verde
Tempo em quietude
3
Rosas murchando
Sobre a lápide negra
Céu de perfeito azul
4
Vinho rubro na taça
Solidão vincada no rosto
Amor desfeito em fumaça
5
Pequena flor branca
Entre as pedras da ruína
Vida a rir em surdina
Três Orientais com sabores
1
Aroma de café
Lembranças da fazenda
Bois quietos no pasto
2
Bolo de laranja
Uma sonata de Mozart
Chá no paraíso
3
Chocolate quente
Bidú cantando Bellini
Céu mais que perfeito
Caravelas
Tão cedo, tão tarde
Leva-me o tempo.
O mar se estende,
Sempre o mar,
Onde meus olhos,
Silenciosas caravelas,
Se desprendem
A buscar quem não conhecem,
Mas que talvez pudessem amar.
Como se há de vislumbrar
A estrela a seguir?
Como saber
Por que se há de navegar?
E eu,
Como serei capaz de me dizer
Que meu coração é só
Uma ilha perdida nesse mar?
E o sol,
Ah, o sol!
O sol não surgiu, ou já se pôs.
Tão cedo, tão tarde,
Tanto faz...
Brancas velas lânguidas,
Pássaros de longas asas,
Displicentes como as ondas
Que parecem nelas mesmas se afogar
Tudo é tão pleno,
Tão certo parece tudo,
E tão plena é a incerteza de tudo
Que talvez, um dia,
E nunca será tarde,
Surjam, flutuantes no mar,
Silenciosas caravelas,
O amor em olhos desconhecidos,
Que haverão, enfim, de me encontrar.
Espanto
O que é isto,
Que sinto e não sei,
Que uiva,
E me esmaga,
Que gela
E me cega,
E me espanta,
E me dói?
O que é isto
Que excrucia meu peito,
Que arde,
E me prostra,
Que grita e me espanca,
E me abusa,
E me rói?
O que é isto
Que me quer e me afoga,
Que me embala e me lambe,
Que me inunda de gozo,
E me beija,
E me encanta,
E me constrói?
O que é isto, tão longe, tão perto,
Tão certo e incerto,
Tão tudo, tão nada,
Que sei existir
E não sei como nasceu?
O que é isto?
Sou eu.
Acerca do nada
Frio.
Antes da manhã
Uma gota desfaz-se num fio
E desce sobre a folha
Do arbusto
Plantado no silêncio.
Chuva
O badalar do sino,
O murmúrio,
Soluços abafados,
Depois o silêncio.
Os vivos,
Vultos cinzentos,
Levando o morto
Pelas alamedas.
Um morto pelas alamedas,
Sob as árvores,
Indo.
Ausência,
Nenhum destino,
O tempo findo.
Lápides,
Cruzes,
Anjos de pedra,
A eternidade da vida, tão fugaz.
E a chuva,
Embebendo a terra,
Embebendo a terra,
Nada mais.
Desestruturação
Primeiro viu a serpente
Que eles, inocentes,
Tinham mãos com polegares oponentes.
E tendo visto, retirou-se,
Pois sua presença era desnecessária.
E a luz se desfez.
Sob o sol rubro do entardecer
Os pomos rutilavam nos ramos.
Eles os colheram e provaram.
Eram doces e também amargos.
Eles então olharam-se e desejaram-se,
E partiram para o leste.
E, para sempre luciferinos,
Multiplicaram-se
E semearam a terra com o sangue
Dos seus iguais
E com a dor inelutável
Da desesperança.
Quadro
Dois corpos despidos
Estendidos exaustos
Entrelaçados no sofá.
Almofadas pelo chão.
Silêncio.
Dois rostos:
Um deles parece sorrir
Adormecido,
Perdido na ilusão.
O outro, assombrado,
Olha no vazio do teto
A dor insuportável da paixão.
Fugaz
Ah, se fossem flores
Teus doces olhos azuis,
Que, distraídos, não me veem.
Eu me faria um colibri
Para diante de ti voejar estático.
Talvez, então me visses.
E, se em tua surpresa,
Me sorrisses,
Bem depressa de teus lábios
Provaria, antes de partir.
Tão cedo, tão tarde
Leva-me o tempo.
O mar se estende,
Sempre o mar,
Onde meus olhos,
Silenciosas caravelas,
Se desprendem
A buscar quem não conhecem,
Mas que talvez pudessem amar.
Como se há de vislumbrar
A estrela a seguir?
Como saber
Por que se há de navegar?
E eu,
Como serei capaz de me dizer
Que meu coração é só
Uma ilha perdida nesse mar?
E o sol,
Ah, o sol!
O sol não surgiu, ou já se pôs.
Tão cedo, tão tarde,
Tanto faz...
Brancas velas lânguidas,
Pássaros de longas asas,
Displicentes como as ondas
Que parecem nelas mesmas se afogar
Tudo é tão pleno,
Tão certo parece tudo,
E tão plena é a incerteza de tudo
Que talvez, um dia,
E nunca será tarde,
Surjam, flutuantes no mar,
Silenciosas caravelas,
O amor em olhos desconhecidos,
Que haverão, enfim, de me encontrar.
Espanto
O que é isto,
Que sinto e não sei,
Que uiva,
E me esmaga,
Que gela
E me cega,
E me espanta,
E me dói?
O que é isto
Que excrucia meu peito,
Que arde,
E me prostra,
Que grita e me espanca,
E me abusa,
E me rói?
O que é isto
Que me quer e me afoga,
Que me embala e me lambe,
Que me inunda de gozo,
E me beija,
E me encanta,
E me constrói?
O que é isto, tão longe, tão perto,
Tão certo e incerto,
Tão tudo, tão nada,
Que sei existir
E não sei como nasceu?
O que é isto?
Sou eu.
Acerca do nada
Frio.
Antes da manhã
Uma gota desfaz-se num fio
E desce sobre a folha
Do arbusto
Plantado no silêncio.
Chuva
O badalar do sino,
O murmúrio,
Soluços abafados,
Depois o silêncio.
Os vivos,
Vultos cinzentos,
Levando o morto
Pelas alamedas.
Um morto pelas alamedas,
Sob as árvores,
Indo.
Ausência,
Nenhum destino,
O tempo findo.
Lápides,
Cruzes,
Anjos de pedra,
A eternidade da vida, tão fugaz.
E a chuva,
Embebendo a terra,
Embebendo a terra,
Nada mais.
Desestruturação
Primeiro viu a serpente
Que eles, inocentes,
Tinham mãos com polegares oponentes.
E tendo visto, retirou-se,
Pois sua presença era desnecessária.
E a luz se desfez.
Sob o sol rubro do entardecer
Os pomos rutilavam nos ramos.
Eles os colheram e provaram.
Eram doces e também amargos.
Eles então olharam-se e desejaram-se,
E partiram para o leste.
E, para sempre luciferinos,
Multiplicaram-se
E semearam a terra com o sangue
Dos seus iguais
E com a dor inelutável
Da desesperança.
Quadro
Dois corpos despidos
Estendidos exaustos
Entrelaçados no sofá.
Almofadas pelo chão.
Silêncio.
Dois rostos:
Um deles parece sorrir
Adormecido,
Perdido na ilusão.
O outro, assombrado,
Olha no vazio do teto
A dor insuportável da paixão.
Fugaz
Ah, se fossem flores
Teus doces olhos azuis,
Que, distraídos, não me veem.
Eu me faria um colibri
Para diante de ti voejar estático.
Talvez, então me visses.
E, se em tua surpresa,
Me sorrisses,
Bem depressa de teus lábios
Provaria, antes de partir.