Olhares
Livro publicado no Rio de Janeiro, em 2000, pela Papel & Tinta Editora.
Para Mary,
“Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.”
Cecília Meirelles
Manhã
A madrugada agoniza
nas raias sanguíneas dos meus olhos.
Da noite em claro
Resta o silêncio.
Os amores sonhados,
Para sempre perdidos,
De novo adormecem
No fundo do orvalho
Bordado no rosto.
E, mais uma vez amanhece.
***
Clown
Minha simples presença
É complexa e me escapa.
A língua que uso,
Com ela não me traduzo.
Por qualquer ângulo que me veja,
Não me sei agudo ou obtuso.
Sigo em frente no descompasso,
Achego-me, assusto-me e me afasto.
Tento pirouettes
E tropeço no silêncio, que é tão vasto.
Entro em cena por acaso,
Não sabendo o que falar.
Nu, busco-me em vão
No prazer de outro olhar.
Mas encontro um prumo sem fio,
Na ilusão a oscilar.
***
Sereia
Então, quando te vi
(e foi um brevíssimo momento),
Julguei ter visto
Nos cantos dos teus olhos
O irresistível tom do encantamento.
Nada mais temi
E ao mar me fiz.
Não pude alcançar-te, porém
(bem te sabia inexistente).
Perdi-me como quis.
Que importa...
Tua visão, guardei-a
E para sempre fui feliz.
***
Voo
Olho o mundo
Com assustado olhos de pássaro,
E passo, e voo...
Quanto peso os homens suportam
Para manter aparências.
E tudo tão à toa.
Paciência...
Leve, leve é o adejar
Do sorriso que me leva.
Ave!
Bailarino, solto-me no azul
Sinuosamente
E espero...
Que outros venham também,
Senão agora, um dia,
Na hora plena de suas vidas,
Amém!
***
Andante
Meus dedos percorrem
Muito lentamente
Teu dorso nu, ao som
Do primeiro quarteto de Borodin.
As cordas entrelaçadas
Fazem do quarto
Uma caixinha de música
E de segredos sem fim.
Também se entrelaçam
Nossas pernas no centro do leito,
E buscam meus lábios o centro do mundo
No fundo de teus lábios carmesim.
O andante suave
Acolhe nosso movimento,
Ondulando sobre a pele arrepiada,
Como borboletas num jardim.
Na janela a brisa leve
Acaricia as folhas da avenca
Plantada num xaxim.
***
Algaravia
Aos poucos as palavras
Vão abrindo os olhos.
Lentas, sucessivas,
Estudam o terreno
E não revelam o sentido.
Serpeiam, circundam,
Se buscam, se apoiam, se opõem,
Não sabem o que querem,
Ou sabem e não querem dizer.
Respiram, buscam no fundo
Coragem, hesitam, não dão
O braço a torcer e, ladinas,
Retiram-se súbitas, desfazem
A frase e põem tudo a perder.
Mas retornam, obrigadas.
Primeiro as mais frágeis
Que nada insinuam,
Nada esclarecem,
Compondo um texto
De todo vulgar.
Depois as outras, as outras,
Oh, as outras não vêm!
Recusam-se as sofisticadas
Por não se misturarem
Com as cotidianas.
Não participam as filosóficas
De um tema sem lustro.
Raso, sem lastro.
As que se dizem politizadas
Permanecem em estado de greve...
As anarquistas se dispersam
Em fonemas
E com tanto absurdo
Não se cria um poema.
Ameno, tão simples,
Tão doce, pobrezinho,
Franciscano...
E como fica difícil dizer:
Eu te amo.
***
Sonata no. 6
Erro ao longo da vida, eclipsado.
Busco-me em outro e me vejo
À borda de um poço debruçado.
No fundo há olhos que ameaçam
E são meus e não me sabem
Mas não os quero perder,
Não me quero a mim.
Quero no amor do outro,
Estar e ser ignorado.
Quero-me lampejos
Que em outros olhos se desfaçam.
Quero-me vago sentimento,
Perfume da noite indecifrado
Que amenize o cansaço dos que passam.
A madrugada agoniza
nas raias sanguíneas dos meus olhos.
Da noite em claro
Resta o silêncio.
Os amores sonhados,
Para sempre perdidos,
De novo adormecem
No fundo do orvalho
Bordado no rosto.
E, mais uma vez amanhece.
***
Clown
Minha simples presença
É complexa e me escapa.
A língua que uso,
Com ela não me traduzo.
Por qualquer ângulo que me veja,
Não me sei agudo ou obtuso.
Sigo em frente no descompasso,
Achego-me, assusto-me e me afasto.
Tento pirouettes
E tropeço no silêncio, que é tão vasto.
Entro em cena por acaso,
Não sabendo o que falar.
Nu, busco-me em vão
No prazer de outro olhar.
Mas encontro um prumo sem fio,
Na ilusão a oscilar.
***
Sereia
Então, quando te vi
(e foi um brevíssimo momento),
Julguei ter visto
Nos cantos dos teus olhos
O irresistível tom do encantamento.
Nada mais temi
E ao mar me fiz.
Não pude alcançar-te, porém
(bem te sabia inexistente).
Perdi-me como quis.
Que importa...
Tua visão, guardei-a
E para sempre fui feliz.
***
Voo
Olho o mundo
Com assustado olhos de pássaro,
E passo, e voo...
Quanto peso os homens suportam
Para manter aparências.
E tudo tão à toa.
Paciência...
Leve, leve é o adejar
Do sorriso que me leva.
Ave!
Bailarino, solto-me no azul
Sinuosamente
E espero...
Que outros venham também,
Senão agora, um dia,
Na hora plena de suas vidas,
Amém!
***
Andante
Meus dedos percorrem
Muito lentamente
Teu dorso nu, ao som
Do primeiro quarteto de Borodin.
As cordas entrelaçadas
Fazem do quarto
Uma caixinha de música
E de segredos sem fim.
Também se entrelaçam
Nossas pernas no centro do leito,
E buscam meus lábios o centro do mundo
No fundo de teus lábios carmesim.
O andante suave
Acolhe nosso movimento,
Ondulando sobre a pele arrepiada,
Como borboletas num jardim.
Na janela a brisa leve
Acaricia as folhas da avenca
Plantada num xaxim.
***
Algaravia
Aos poucos as palavras
Vão abrindo os olhos.
Lentas, sucessivas,
Estudam o terreno
E não revelam o sentido.
Serpeiam, circundam,
Se buscam, se apoiam, se opõem,
Não sabem o que querem,
Ou sabem e não querem dizer.
Respiram, buscam no fundo
Coragem, hesitam, não dão
O braço a torcer e, ladinas,
Retiram-se súbitas, desfazem
A frase e põem tudo a perder.
Mas retornam, obrigadas.
Primeiro as mais frágeis
Que nada insinuam,
Nada esclarecem,
Compondo um texto
De todo vulgar.
Depois as outras, as outras,
Oh, as outras não vêm!
Recusam-se as sofisticadas
Por não se misturarem
Com as cotidianas.
Não participam as filosóficas
De um tema sem lustro.
Raso, sem lastro.
As que se dizem politizadas
Permanecem em estado de greve...
As anarquistas se dispersam
Em fonemas
E com tanto absurdo
Não se cria um poema.
Ameno, tão simples,
Tão doce, pobrezinho,
Franciscano...
E como fica difícil dizer:
Eu te amo.
***
Sonata no. 6
Erro ao longo da vida, eclipsado.
Busco-me em outro e me vejo
À borda de um poço debruçado.
No fundo há olhos que ameaçam
E são meus e não me sabem
Mas não os quero perder,
Não me quero a mim.
Quero no amor do outro,
Estar e ser ignorado.
Quero-me lampejos
Que em outros olhos se desfaçam.
Quero-me vago sentimento,
Perfume da noite indecifrado
Que amenize o cansaço dos que passam.
***
Noite
Entre o nada e o nada
A vida é uma ponte estreita.
Sigo.
Acima, a lua pela metade –
O olho dissimulado de um ciclope
Espreita.
Tua negra boca escancarada,
Ciclope, a mim não ameaça.
Desdenho-te.
Enquanto sigo, sou,
Enquanto sou, sou tudo.
Sonho,
Estendo-me além dos horizontes
Que imagino.
E tudo me pertence –
A lua inteira, as estrelas
E as ninfas todas
Que por aqui passeiam.
Para fazer-te cego de ciúmes
Vou deitar-me com elas,
Nuas e alegres
À beira do abismo.
Porque, ciclope, digo-te isto:
Inútil é ser eterno.
Amor só há à beira do abismo.
Eu, que morro,
Existo.
***
Outono
Noite.
Só ela no leito
Sob a angústia do lençol.
Na pele das mãos
O inverno se revela,
No imo do corpo
Ainda é verão.
Os olhos se fecham, à procura.
Entre o sono e a vigília
Repousa o mágico espelho.
– Diz-me:
Solidão é o que resta?
Não diz que sim o silêncio,
Nem que não...
Ela jaz em inerte sofrer.
Os olhos se abrem, ainda à procura,
E ninguém há para encontrá-los.
Pelo corpo desnudo as mãos ansiosas
Buscam outras
Que o corpo lhe buscassem.
Sob o lençol da angústia
Folhas amarelas espalham-se
No solo fértil, abandonado.
E no silêncio da vida inconclusa
Estende-se a noite
Do coração torturado.
***
Equilibrista
Um fio extenso
Suspenso sobre o mundo:
A vida.
Em cada passo certo
A incerteza do próximo,
Alongando o risco
Que, controposto à sapatilha,
Impede a queda presumida.
O espaço é livre,
Não há escolha, porém.
Só o fascínio do medo irresistível.
Ir sobre o exato limite imposto,
Eis o jogo e o ato.
Tudo por nada,
Ou pelo meramente suposto.
Estendem-se os braços
Na pretensão do equilíbrio.
Sob a luz das estrelas
Segue a imitação de um pássaro
Preso à própria crucifixição.
...E no fundo repousa
O mundo indiferente,
Alheio aos passos inúteis da paixão.
***
Caleidoscópio
O fim da tarde submerge,
Tremulando no silêncio
Das cores indecisas.
A última será?
Trêmulo estarei na última tarde,
Como sempre estive
Todas as tardes e todas as manhãs
De todos os dias,
Em busca das formas sucedâneas.
Estarei como sempre absorto
No giro perpétuo do círculo mágico:
Rostos, amores, sorrisos,
Medos, enigmas ...
Nada tenho, nada sei,
Mas nunca é tarde.
Na tarde que morre
Quero não morrer,
Só pairar
Para sempre indeciso
Nos cambiantes reflexos das cores
Que inundam de vida o olhar.
***
Inominado 13
Na praça vazia,
Aos pés da grande estátua equestre,
As flores da homenagem
Murcharam ao sol ...
Não, não importa a glória.
Não somos grandes,
Não somos fortes,
Não somos pétreos.
Somos pétalas,
Ainda que não queiramos,
Delicadas e transitórias.
***
Inominado 14
Lá fora, uma inesperada
Algazarra de crianças
Julgo ouvir uma cantiga.
Uma ciranda?
Não...
Dor!
Tenho a alma da cor
De uma foto antiga.
Minha vida, por anda?
***
Infância
A velha casa da vila
Era um castelo com o reboco caído,
Duas salas, dois quartos,
Rangentes tábuas corridas,
Aranhas, segredos no porão
E os sonhos de toda a vida.
À noite a avó catava o feijão,
Punha a carne em vinha d’alhos
E cantava uma cantiga
Que dizia de uma velha
Que tinha um gato,
Um cachorro e um pinto
Debaixo da cama, tinha.
Aos domingos o avô fazia doces,
Dava banho nas cadelas,
Falava mal do governo
E colocava Galli-Curci na victrola.
Gilda, entre flautas, suspirava...
Il mio cuor ancor palpita.
O tio solteirão lia o jornal
Com uma lupa dourada.
Contava do cometa de 1910,
Do naufrágio de 1912,
Dos bichos do tempo
De antes da história
E os olhos do menino se arregalavam.
A avó, hoje, já não anda
E espera nas manhãs sem sol.
O avô, que era espírita,
Desencarnou à noitinha
Em busca do indecifrável.
O tio, ateu e simplório,
Apenas morreu...
Olho-me na grande sala deste apartamento
De paredes brancas e lisas.
Não é um castelo.
Nada há debaixo da cama
E como brilham as tábuas corridas.
Espero o sol no amanhecer,
Sorrindo dos meus olhos marejados,
Que ainda hoje insistem em ver
Aquela magia tão perdida,
E sigo pelos dias, flutuante,
Abraçado às velhas tábuas rangentes,
Para sempre salvação da minha vida.
***
Inominado 15
Sobre o dentro de nós
Palavras
E palavras
Têm o peso inútil
Do que não é possível.
O que é em nós
Não tem nome
E resta no fundo,
Indizível.
***
Prelúdio
Lá fora, na quase manhã,
A chuva rabisca as folhas.
Fusas líquidas
Pululam nos vidros da janela
E escorrem semibreves,
Inseminando o olhar.
O ruído, protomúsica delicada,
Preenche o silêncio
Sem ferí-lo.
Os sentidos se desprendem do corpo
E nadam no quarto
Como peixes distraídos.
Ouve-se o cheiro da terra.
Aspiram-se as cores
Que estremunham na penumbra,
A visão tateia os móveis,
A pele saboreia o frio.
E o eterno se vislumbra
Num momento fugaz,
Quando nada se observa
E tudo num indefinido
Se desfaz.
***
Inominado 16
Não ter, porém querer
E temer a hora
Em que se há de ter
De frente não se vê o verso
Onde corre o risco do prazer.
Faz-se o bordado pelo avesso,
Cobrindo o traço,
Que não se deve perceber.
***
Ocultação
Olhares felinos
Tocam-se, brevíssimos, no ar
E se escondem, fitando longe,
Na dissimulada linha do horizonte,
A intimidade
Dos segredos adivinhados.
As pupilas, que ardem, impassíveis,
Os guardam no fundo,
Levemente doces,
Levemente amargos,
Despidos
E não revelados.
***
Inominado 17
Num canto da calçada
A pobre negra dá o peito
À criança magra.
Os carros seguem
Sobre as cruzes de asfalto.
A pressa leva os passantes
Pelos mistérios de suas vias.
O sol se estende sobre todos.
Na esquina
O cego do saxofone
Toca Fascinação.
E, como um súbito eclipse,
A profunda tristeza do mundo
Tudo em mim silencia.
***
Em silêncio
Parto,
E ao partir
Nada quero dizer,
Nem quero que saibas
Que parto ferido
Por saber
Que não partiria
Se soubesse
Que, ao me saberes perdido,
Talvez tivesses
Teu coração partido.
***
Zero
Dispo-me,
Recuso-me.
Despenso-me,
Desbusco-me,
Desfaço-me dos olhares
Com os quais me invento
Para inventar o mundo.
Quem sabe,
Na profunda cegueira
A luz então se faça.
Que isto esteja escrito, ou não,
Tanto faz.
As estrelas são pontos na distância
E nós, os homens,
Apenas conseguimos exibir
Nossa absoluta desimportância.
***
Credo
Não creio.
É um modo de ver.
Em nada difiro.
As limitações do meu corpo
Insistem em me dizer.
Meu quinhão de amargura,
De paixão pela vida
E compaixão pelo outro
É idêntico ao de todos,
Creio.
Não creio.
É só uma característica,
Como os narizes platirrínos
Ou os crânios dolicocéfalos.
Não há necessidade
De se dar ao fato
Maior atenção.
***
Devaneio
Deixar-se ir
Como brancos pássaros
Sobre o mar.
Guardar para si
apenas o olhar
E flutuar na brisa
Como folha
Solta e imprecisa.
Ver o que além da visão
Se esconde.
Não rir, nem chorar,
Não ficar, nem partir,
Ser e não pensar,
Deixar de ser
Para existir.
***
Prelúdio
Lá fora, na quase manhã,
A chuva rabisca as folhas.
Fusas líquidas
Pululam nos vidros da janela
E escorrem semibreves,
Inseminando o olhar.
O ruído, protomúsica delicada,
Preenche o silêncio
Sem feri-lo.
Os sentidos se desprendem do corpo
E nadam no quarto
Como peixes distraídos.
Ouve-se o cheiro da terra,
Aspiram-se as cores
Que estremunham na penumbra,
A visão tateia os móveis,
A pele saboreia o frio.
E o eterno se vislumbra
Num momento fugaz,
Quando nada se observa
E tudo no indefinido
Se desfaz.
***
Noite
Entre o nada e o nada
A vida é uma ponte estreita.
Sigo.
Acima, a lua pela metade –
O olho dissimulado de um ciclope
Espreita.
Tua negra boca escancarada,
Ciclope, a mim não ameaça.
Desdenho-te.
Enquanto sigo, sou,
Enquanto sou, sou tudo.
Sonho,
Estendo-me além dos horizontes
Que imagino.
E tudo me pertence –
A lua inteira, as estrelas
E as ninfas todas
Que por aqui passeiam.
Para fazer-te cego de ciúmes
Vou deitar-me com elas,
Nuas e alegres
À beira do abismo.
Porque, ciclope, digo-te isto:
Inútil é ser eterno.
Amor só há à beira do abismo.
Eu, que morro,
Existo.
***
Outono
Noite.
Só ela no leito
Sob a angústia do lençol.
Na pele das mãos
O inverno se revela,
No imo do corpo
Ainda é verão.
Os olhos se fecham, à procura.
Entre o sono e a vigília
Repousa o mágico espelho.
– Diz-me:
Solidão é o que resta?
Não diz que sim o silêncio,
Nem que não...
Ela jaz em inerte sofrer.
Os olhos se abrem, ainda à procura,
E ninguém há para encontrá-los.
Pelo corpo desnudo as mãos ansiosas
Buscam outras
Que o corpo lhe buscassem.
Sob o lençol da angústia
Folhas amarelas espalham-se
No solo fértil, abandonado.
E no silêncio da vida inconclusa
Estende-se a noite
Do coração torturado.
***
Equilibrista
Um fio extenso
Suspenso sobre o mundo:
A vida.
Em cada passo certo
A incerteza do próximo,
Alongando o risco
Que, controposto à sapatilha,
Impede a queda presumida.
O espaço é livre,
Não há escolha, porém.
Só o fascínio do medo irresistível.
Ir sobre o exato limite imposto,
Eis o jogo e o ato.
Tudo por nada,
Ou pelo meramente suposto.
Estendem-se os braços
Na pretensão do equilíbrio.
Sob a luz das estrelas
Segue a imitação de um pássaro
Preso à própria crucifixição.
...E no fundo repousa
O mundo indiferente,
Alheio aos passos inúteis da paixão.
***
Caleidoscópio
O fim da tarde submerge,
Tremulando no silêncio
Das cores indecisas.
A última será?
Trêmulo estarei na última tarde,
Como sempre estive
Todas as tardes e todas as manhãs
De todos os dias,
Em busca das formas sucedâneas.
Estarei como sempre absorto
No giro perpétuo do círculo mágico:
Rostos, amores, sorrisos,
Medos, enigmas ...
Nada tenho, nada sei,
Mas nunca é tarde.
Na tarde que morre
Quero não morrer,
Só pairar
Para sempre indeciso
Nos cambiantes reflexos das cores
Que inundam de vida o olhar.
***
Inominado 13
Na praça vazia,
Aos pés da grande estátua equestre,
As flores da homenagem
Murcharam ao sol ...
Não, não importa a glória.
Não somos grandes,
Não somos fortes,
Não somos pétreos.
Somos pétalas,
Ainda que não queiramos,
Delicadas e transitórias.
***
Inominado 14
Lá fora, uma inesperada
Algazarra de crianças
Julgo ouvir uma cantiga.
Uma ciranda?
Não...
Dor!
Tenho a alma da cor
De uma foto antiga.
Minha vida, por anda?
***
Infância
A velha casa da vila
Era um castelo com o reboco caído,
Duas salas, dois quartos,
Rangentes tábuas corridas,
Aranhas, segredos no porão
E os sonhos de toda a vida.
À noite a avó catava o feijão,
Punha a carne em vinha d’alhos
E cantava uma cantiga
Que dizia de uma velha
Que tinha um gato,
Um cachorro e um pinto
Debaixo da cama, tinha.
Aos domingos o avô fazia doces,
Dava banho nas cadelas,
Falava mal do governo
E colocava Galli-Curci na victrola.
Gilda, entre flautas, suspirava...
Il mio cuor ancor palpita.
O tio solteirão lia o jornal
Com uma lupa dourada.
Contava do cometa de 1910,
Do naufrágio de 1912,
Dos bichos do tempo
De antes da história
E os olhos do menino se arregalavam.
A avó, hoje, já não anda
E espera nas manhãs sem sol.
O avô, que era espírita,
Desencarnou à noitinha
Em busca do indecifrável.
O tio, ateu e simplório,
Apenas morreu...
Olho-me na grande sala deste apartamento
De paredes brancas e lisas.
Não é um castelo.
Nada há debaixo da cama
E como brilham as tábuas corridas.
Espero o sol no amanhecer,
Sorrindo dos meus olhos marejados,
Que ainda hoje insistem em ver
Aquela magia tão perdida,
E sigo pelos dias, flutuante,
Abraçado às velhas tábuas rangentes,
Para sempre salvação da minha vida.
***
Inominado 15
Sobre o dentro de nós
Palavras
E palavras
Têm o peso inútil
Do que não é possível.
O que é em nós
Não tem nome
E resta no fundo,
Indizível.
***
Prelúdio
Lá fora, na quase manhã,
A chuva rabisca as folhas.
Fusas líquidas
Pululam nos vidros da janela
E escorrem semibreves,
Inseminando o olhar.
O ruído, protomúsica delicada,
Preenche o silêncio
Sem ferí-lo.
Os sentidos se desprendem do corpo
E nadam no quarto
Como peixes distraídos.
Ouve-se o cheiro da terra.
Aspiram-se as cores
Que estremunham na penumbra,
A visão tateia os móveis,
A pele saboreia o frio.
E o eterno se vislumbra
Num momento fugaz,
Quando nada se observa
E tudo num indefinido
Se desfaz.
***
Inominado 16
Não ter, porém querer
E temer a hora
Em que se há de ter
De frente não se vê o verso
Onde corre o risco do prazer.
Faz-se o bordado pelo avesso,
Cobrindo o traço,
Que não se deve perceber.
***
Ocultação
Olhares felinos
Tocam-se, brevíssimos, no ar
E se escondem, fitando longe,
Na dissimulada linha do horizonte,
A intimidade
Dos segredos adivinhados.
As pupilas, que ardem, impassíveis,
Os guardam no fundo,
Levemente doces,
Levemente amargos,
Despidos
E não revelados.
***
Inominado 17
Num canto da calçada
A pobre negra dá o peito
À criança magra.
Os carros seguem
Sobre as cruzes de asfalto.
A pressa leva os passantes
Pelos mistérios de suas vias.
O sol se estende sobre todos.
Na esquina
O cego do saxofone
Toca Fascinação.
E, como um súbito eclipse,
A profunda tristeza do mundo
Tudo em mim silencia.
***
Em silêncio
Parto,
E ao partir
Nada quero dizer,
Nem quero que saibas
Que parto ferido
Por saber
Que não partiria
Se soubesse
Que, ao me saberes perdido,
Talvez tivesses
Teu coração partido.
***
Zero
Dispo-me,
Recuso-me.
Despenso-me,
Desbusco-me,
Desfaço-me dos olhares
Com os quais me invento
Para inventar o mundo.
Quem sabe,
Na profunda cegueira
A luz então se faça.
Que isto esteja escrito, ou não,
Tanto faz.
As estrelas são pontos na distância
E nós, os homens,
Apenas conseguimos exibir
Nossa absoluta desimportância.
***
Credo
Não creio.
É um modo de ver.
Em nada difiro.
As limitações do meu corpo
Insistem em me dizer.
Meu quinhão de amargura,
De paixão pela vida
E compaixão pelo outro
É idêntico ao de todos,
Creio.
Não creio.
É só uma característica,
Como os narizes platirrínos
Ou os crânios dolicocéfalos.
Não há necessidade
De se dar ao fato
Maior atenção.
***
Devaneio
Deixar-se ir
Como brancos pássaros
Sobre o mar.
Guardar para si
apenas o olhar
E flutuar na brisa
Como folha
Solta e imprecisa.
Ver o que além da visão
Se esconde.
Não rir, nem chorar,
Não ficar, nem partir,
Ser e não pensar,
Deixar de ser
Para existir.
***
Prelúdio
Lá fora, na quase manhã,
A chuva rabisca as folhas.
Fusas líquidas
Pululam nos vidros da janela
E escorrem semibreves,
Inseminando o olhar.
O ruído, protomúsica delicada,
Preenche o silêncio
Sem feri-lo.
Os sentidos se desprendem do corpo
E nadam no quarto
Como peixes distraídos.
Ouve-se o cheiro da terra,
Aspiram-se as cores
Que estremunham na penumbra,
A visão tateia os móveis,
A pele saboreia o frio.
E o eterno se vislumbra
Num momento fugaz,
Quando nada se observa
E tudo no indefinido
Se desfaz.
***