Sombras e Sorrisos
Livro publicado pela Papel & Tinta, Rio de Janeiro - 2006
Rio de Abril
Ruas sob o sol,
Claras e sujas.
Vida e morte.
Luto.
Sigo à toa,
Daqui para ali
Com minha pasta pesada.
Um louco, meu afim,
Coberto de trapos e jornais,
Olha os manequins numa vitrine
E ri.
Um cego, como eu,
Aguarda no sinal.
Ninguém o vê.
Um mendigo, a quem me assemelho,
Pede-me ajuda,
Com estudado sofrimento.
Tudo por acaso.
Transcendências inúteis,
Porém transferíveis.
Que eu me cubra de trapos,
Que eles levem minha pasta.
Sigamos vadios
No desatino do ir e vir.
O sol é ameno em abril
E tudo é igual
Na tristeza plena do existir.
Ruas sob o sol,
Claras e sujas.
Vida e morte.
Luto.
Sigo à toa,
Daqui para ali
Com minha pasta pesada.
Um louco, meu afim,
Coberto de trapos e jornais,
Olha os manequins numa vitrine
E ri.
Um cego, como eu,
Aguarda no sinal.
Ninguém o vê.
Um mendigo, a quem me assemelho,
Pede-me ajuda,
Com estudado sofrimento.
Tudo por acaso.
Transcendências inúteis,
Porém transferíveis.
Que eu me cubra de trapos,
Que eles levem minha pasta.
Sigamos vadios
No desatino do ir e vir.
O sol é ameno em abril
E tudo é igual
Na tristeza plena do existir.
Além do olhar
Para ver o que não se mostra
E saber o que não se diz,
Vai-se ao verso pelo avesso
E busca-se o que há no outro,
Depois do mistério do olhar.
O avesso do verso
É o poema desnudo,
O exposto desejo,
Pousado em silêncio
Entre o pranto e o riso.
Depois do olhar,
No outro há o mesmo que busca,
E chora, e ri, e acena,
Talvez convidando a dançar
Como se dança no paraíso.
Para ver o que não se mostra
E saber o que não se diz,
Vai-se ao verso pelo avesso
E busca-se o que há no outro,
Depois do mistério do olhar.
O avesso do verso
É o poema desnudo,
O exposto desejo,
Pousado em silêncio
Entre o pranto e o riso.
Depois do olhar,
No outro há o mesmo que busca,
E chora, e ri, e acena,
Talvez convidando a dançar
Como se dança no paraíso.
Ruína
De repente
Só há penumbra, silêncio
E uma dor indizível.
O verso não se constrói,
Ou se quebra e jaz.
A alma é um deserto -
Pedra, pó
E um vento fino como navalha.
De repente
Nada há a dizer.
Viver é inútil espera
Que no tempo se desfaz.
E um medo frio como aço
Por toda a alma se espalha.
Janela no Palácio Topkapi - Istanbul
Foto - Noemi Ribeiro
De repente
Só há penumbra, silêncio
E uma dor indizível.
O verso não se constrói,
Ou se quebra e jaz.
A alma é um deserto -
Pedra, pó
E um vento fino como navalha.
De repente
Nada há a dizer.
Viver é inútil espera
Que no tempo se desfaz.
E um medo frio como aço
Por toda a alma se espalha.
Janela no Palácio Topkapi - Istanbul
Foto - Noemi Ribeiro
Encontro
Nenhuma palavra hoje
Trará à luz
A sombria dor do meu silêncio.
Nenhum verso hoje
Há de esculpir
A crua face da minha angústia.
Nenhum poema hoje
Dará vida
À inútil irrisão da minha vida.
Não, que hoje estarei só,
Despido diante de mim,
Só para olhar-me
E assombrar-me
Com as formas inesculpidas
Que me formam o ser,
Com a dor do meu silêncio,
Com a crua face da minha angústia,
Com a inútil irrisão da minha vida.
Quero-me, sim, despido,
Cravejado no lenho insuportável
Da verdade temida e desejada.
Quero encontrar-me com deus,
Imagem e semelhança do que sou,
Eterno criador do nada.
Nenhuma palavra hoje
Trará à luz
A sombria dor do meu silêncio.
Nenhum verso hoje
Há de esculpir
A crua face da minha angústia.
Nenhum poema hoje
Dará vida
À inútil irrisão da minha vida.
Não, que hoje estarei só,
Despido diante de mim,
Só para olhar-me
E assombrar-me
Com as formas inesculpidas
Que me formam o ser,
Com a dor do meu silêncio,
Com a crua face da minha angústia,
Com a inútil irrisão da minha vida.
Quero-me, sim, despido,
Cravejado no lenho insuportável
Da verdade temida e desejada.
Quero encontrar-me com deus,
Imagem e semelhança do que sou,
Eterno criador do nada.
Noturno
É tarde e amanhece.
Acorda o primeiro pássaro.
Em vão pela noite, insones,
Buscaram meus olhos
O alento de um perdido olhar.
Vieram os fantasmas
E, como sempre, se foram.
Mas aquele olhar, só aquele,
Não veio e não mais virá.
A vida segue e nada acontece.
É sempre tarde agora,
Quando amanhece.
É tarde e amanhece.
Acorda o primeiro pássaro.
Em vão pela noite, insones,
Buscaram meus olhos
O alento de um perdido olhar.
Vieram os fantasmas
E, como sempre, se foram.
Mas aquele olhar, só aquele,
Não veio e não mais virá.
A vida segue e nada acontece.
É sempre tarde agora,
Quando amanhece.
Eu e o gato
Gorda criatura,
Às vezes magrinha,
Nem Quixote, nem Sancho.
Triste figura
Sempre perdida,
Em busca do sonho.
Gauche na escrita,
Na vida, talvez,
Carregando esta cruz,
Este vasto nariz.
Quem olha não diz,
E, no entanto, acredite,
Nunca teve bronquite
E, nem de longe, é um casto,
Só um míope aloucado,
Uma quase pessoa,
Ainda aprendiz,
Enfim,
Vai-se levando na flauta,
Que a vida é assim.
Meu canário fugiu,
Murchou meu jasmim.
Cadê o menino que estava aqui?
Ai de mim...
O gato comeu.
Gorda criatura,
Às vezes magrinha,
Nem Quixote, nem Sancho.
Triste figura
Sempre perdida,
Em busca do sonho.
Gauche na escrita,
Na vida, talvez,
Carregando esta cruz,
Este vasto nariz.
Quem olha não diz,
E, no entanto, acredite,
Nunca teve bronquite
E, nem de longe, é um casto,
Só um míope aloucado,
Uma quase pessoa,
Ainda aprendiz,
Enfim,
Vai-se levando na flauta,
Que a vida é assim.
Meu canário fugiu,
Murchou meu jasmim.
Cadê o menino que estava aqui?
Ai de mim...
O gato comeu.
Natureza
Sala,
No centro da mesa
O prato de maçãs.
Aveludado aroma rubro
Entre finas estrias amareladas –
Sóis num poente ibérico.
Silêncio.
O olhar impassível
Esconde no fundo
O desejo
Que da alma recende:
Rever-te, andaluza sem pecado
Nua a ofertar-me
A origem do mundo.
Sala,
No centro da mesa
O prato de maçãs.
Aveludado aroma rubro
Entre finas estrias amareladas –
Sóis num poente ibérico.
Silêncio.
O olhar impassível
Esconde no fundo
O desejo
Que da alma recende:
Rever-te, andaluza sem pecado
Nua a ofertar-me
A origem do mundo.
Natureza morta
Mesa rústica.
No prato improváveis pomos rubros
Rutilante–opacos.
Cidras silenciosas
Expostas.
Um peixe jaz.
Seu olho olha,
Infinito zero.
Luz de vela,
Fundo escuro.
Óleo sobre tela.
A alma,
Flor despetalada.
Que há ali?
Nada.
Mesa rústica.
No prato improváveis pomos rubros
Rutilante–opacos.
Cidras silenciosas
Expostas.
Um peixe jaz.
Seu olho olha,
Infinito zero.
Luz de vela,
Fundo escuro.
Óleo sobre tela.
A alma,
Flor despetalada.
Que há ali?
Nada.